AS ELEIÇÕES E A COLIGAÇÃO

AS ELEIÇÕES E A COLIGAÇÃO

O centrão predomina como prato principal do poder e a direita e a esquerda, na idiossincrasia portuguesa, são um complemento que apenas tempera.
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24.10.04
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As eleições regionais de Açores e Madeira inviabilizam de vez a repetição da coligação pré-eleitoral PSD/PP. Somando estes resultados aos das últimas eleições europeias, é cada vez mais notório que a ida conjunta às urnas não acrescenta ao PSD e, inclusive, tira sentido ao PP. Mesmo descontando a erosão provocada pela acção governativa, os números são maus e a enésima maioria de Alberto João Jardim, embora a mais modesta, está aí para relembrar ao PSD a relativa importância do parceiro de que o polémico presidente da Madeira nunca precisou.
O PS, ajudado pelo estrondoso resultado de Carlos César, surge agora como o grande favorito para o ciclo eleitoral que se abre a partir das autárquicas de 2005 e acaba nas presidenciais de Janeiro de 2006. O pessoal político de ambos os partidos do poder já interiorizou esta realidade, tanto a nível nacional como regional, e está a preparar-se para o inevitável: PSD e PP vão ter de concorrer em separado.
Depois se verá se Santana Lopes e Paulo Portas, afastada de momento qualquer possibilidade dos próximos meses voltarem a levar o PSD para perto de uma maioria absoluta, terão novas condições para juntar-se.
Este quadro, entenda-se, torna ainda mais delicado o dia-a-dia da actividade governativa, agora atacado por dificuldades diversas que começam nas opções contidas no Orçamento Geral do Estado, em clara descolagem das políticas de Manuela Ferreira Leite, e acabam na agressividade de Morais Sarmento no pelouro da comunicação social. A falta de habilidade de Rui Gomes da Silva, que ressuscitou a palavra cabala para o debate político depois de ter inventado o princípio do contraditório na opinião, também não ajuda. Os próximos meses não deixarão de colocar os líderes dos dois partidos perante necessidades concretas, e diferentes, com eventual reflexo na actuação dos ministros e secretários de Estado afectos a cada um deles. A possibilidade de choques no interior do Governo decorrentes desta nova realidade não é apenas académica e basta lembrar a actuação de Nobre Guedes no caso da Galp de Matosinhos sem cuidar da posição anterior de António Mexia.
No congresso de Novembro, planeado para aclamar e legitimar Santana Lopes, não deixarão de se ouvir vozes a pedir clarificação nestas matérias e a definição de uma estratégia coerente para a abordagem às três eleições. E por muito que o líder se esforce em fugir à questão, que só o pode atrapalhar neste momento, ela irá entrando na agenda, em crescendo – porque tanto o PSD, como o PS, no sistema político português, não estão vocacionados para alianças. O PP, de um lado, e o Bloco ou o PCP, do outro, são, por enquanto, apenas muletas. O centrão predomina como prato principal do poder e a direita e a esquerda, na idiossincrasia portuguesa, são um complemento que apenas tempera.
A central de propaganda em que o Governo gasta dois milhões de euros (!) vai ter a parceria dos órgãos de informação que brevemente irão ver as suas chefias domadas e muito que fazer nos próximos tempos. Além da rotina de ter de fazer passar por boas as medidas do Governo, vai precisar de filtrar choques internos e gerir com esmero o actual estado das relações de Santana Lopes com Jorge Sampaio. O problema estará em saber se o primeiro-ministro acredita mesmo que mais importante do que governar bem é dar, ou inventar, notícias boas. Se acreditar nisso estará condenado a perceber daqui por uns tempos que nenhum capataz, por mais fiel e empenhado, lhe poderá dar sequer o controlo das redacções e da informação, quanto mais o que apenas ele próprio, Santana Lopes, e o seu Governo, podem conquistar: a confiança dos portugueses.
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