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Correio da Manhã

Opinião
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29 de Outubro de 2003 às 00:00
Muitos entrevistadores seguem à risca esta cartilha, que refere que a pergunta deve ser substituída pela AK-47. Não percebendo que quando o entrevistador quer fazer de entrevistado ao mesmo tempo, alguém está a mais no estúdio.
O conceito é hoje aplicado de forma sistemática por Manuela Moura Guedes no Jornal Nacional da TVI. Na última semana a sua vítima foi aquele que se julgava estar a comentar os temas do dia, Miguel Sousa Tavares, que às tantas teve de dizer que "se me impedes, eu calo-me". Mas isso não evitou a sensação com que se ficou de que Sousa Tavares estava numa cadeira eléctrica, dentro da ideologia de que quem é interrogado é culpado de algo. Ninguém defende os velhos princípios graxistas em que o jornalista dizia ao entrevistado para "esclarecer" os espectadores e aqueles referiam: "ainda bem que me faz essa pergunta". Mas parte-se do pressuposto que uma entrevista na televisão não é um jogo de boxe, em que todos querem pôr o interlocutor com o ‘olho à Belenenses’.
A agressividade ilógica não traz polémica, debate de ideias ou esclarecimento. Apenas aumenta a confusão. Embora haja quem considere que é a gritaria que traz entretenimento e este é que dá ‘share’. Depois de ouvir Manuela Moura Guedes fui buscar um belo disco que editou em 1982, ‘Álibi’. E onde ela cantava: "Qual é o meu papel nesta comédia/Qual é o meu papel nesta tragédia?". Hoje já não sei.
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