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Correio da Manhã

Opinião
12 de Outubro de 2004 às 01:31
Bem espremidas as convulsões da última semana, o que temos? Temos um Governo que parece exclusivamente dedicado a depositar Guterres em Belém e Sócrates em S. Bento. No segundo caso, pelos vistos, com carácter de urgência. Para cúmulo, a baixa política impede que prestemos a atenção devida às novidades das forças saudavelmente estáveis e democráticas. Ou seja, ao PCP.
Assim de repente, quando vemos associar a palavra “novidades” ao PCP julgamos tratar-se de um equívoco. Depois, reparamos melhor e confirmamos que é de facto um equívoco. Apenas sucede que os camaradas desejam trocar de líder. O motivo não é, longe disso, a falhada renovação de que alguns reaccionários acusam o dr. Carvalhas. Houvesse justiça no mundo, e ninguém poderia sequer insinuar que, na dúzia de anos em foi secretário-geral, o dr. Carvalhas tenha ao menos tentado renovar o que quer que fosse.
A verdade é que, por infortúnio, o dr. Carvalhas nunca se assemelhou a um comunista. Será questão genética, fonética, geográfica ou mera responsabilidade de um hipotético consultor de marketing, mas conheço gente que começou a votar no PCP graças ao “ar simpático” do homem. O que não se admite. Mal ou bem, o PCP resistiu às prisões do “fascismo”, à tortura do sono, ao 25 de Novembro e à queda do Muro. Já é demasiado pretender que resista à “simpatia”, ainda que imaginária, do seu líder. Cunhal não passou décadas a meter medo por acaso ou mania.
Também por isso, acho apressado que o nome de Jerónimo de Sousa seja o mais falado para a sucessão. Certo que ele pode estar a 300 metros e em cuecas, que uma pessoa olha e constata: ali vai um comuna. O problema é que, quando fingiu concorrer às “presidenciais” de 1996, Jerónimo aproveitou um convívio de campanha para executar uma espécie de dança (lembram-se?), o que é susceptível de ser interpretado como um sintoma de excentricidade “simpática”, naturalmente a evitar.
É desnecessário correr riscos. Existe a disponibilidade de um vasto conjunto de estalinistas encartados, secos e sérios, que garantem a continuidade do partido enquanto a instituição sinistra e desagradável que sempre foi. Sem querer ser exaustivo, penso no óbvio Carvalho da Silva, no promissor Bernardino, no lendário Vítor Dias. Penso sobretudo na múmia de Lenine, com 134 anos e em aceitável estado de conservação. Mesmo porque os moscovitas não a querem por lá, talvez não custasse importá-la para dirigir o PCP, fundado e mantido à imagem dela. Dado que nem a múmia nem o PCP têm onde cair mortos, o gesto seria uma bênção.
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