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Correio da Manhã

Opinião
14 de Junho de 2007 às 09:00
Governo recuou no processo Ota. Recuou na rua mas com habilidade. Encontrou um interlocutor externo credível e erigiu-o como parceiro preferencial. Colocando em segundo plano as oposições e o Parlamento. Uma atitude tardia mas assisada. Era insuportável entrar na presidência da UE com tal espinha irritativa.
Agora, por seis meses, assistirá de bancada ao embate entre a Margem Sul e o Oeste, entre ambientalistas das diferentes correntes, esperando pela justa decisão de uma comissão genuinamente “independente” que o desonerará de responsabilidades numa escolha difícil. No fim bastar-lhe-á seguir o douto parecer que, se favorável à Ota, deixará a oposição de gatas.
É por isso que, por inabilidade alheia, Sócrates ainda não perdeu o confronto. Perde ao intervalo? Talvez. Mas o resultado só é definitivo no final e tudo aponta para que ainda possa virar o score. Ganhará se os sábios conseguirem secar o pântano e confirmar que a Ota não serve só para hidroaviões. Não perderá se tiver de ir para perto da Academia do Sporting, já que o fará com uma capa de humildade, tardia, mas ainda assim uma humildade efectiva.
A oposição podia e devia ter apresentado uma alternativa em que acreditasse, no lugar de abandonar a iniciativa a uma sociedade de mecenas anónimos. Aliás, é através de propostas contrastantes que se deve afirmar uma alternativa real.
Com o à-vontade de quem aceitou a Ota, com acertos de pormenor, quando há dois anos foi anunciada a sua irreversibilidade, defendo agora a solução Portela 1. Que significa manter um aeroporto seguro às portas de Lisboa e, com reduzido investimento, resolver o problema para mais de dez de anos – para tanto chegaria a inversão das pistas e o encontro de soluções expeditas, porque já existentes, quer a norte quer a sul da capital, para as low cost e para o tráfego de mercadorias.
Os recursos assim poupados, somados à receita da eventual privatização da ANA, poderiam ser deslocados para a modernização dos sistemas de educação e saúde, para a formação profissional.
Na disputa entre Alcochete e a Ota não vai ganhar a oposição, não é provável que perca Sócrates, mas os portugueses serão goleados, por, aparentemente, só irem ser analisadas duas possíveis empreitadas, em locais diversos mas ambas esbanjadoras de recursos.
Ao menos que este debate sirva para que se abra um outro. O do TGV.
Meio de comunicação só existente na Europa rica não trará nada de novo à economia portuguesa. A conclusão do processo de modernização da linha do Norte já significaria uma viagem relativamente curta e confortável.
Este projecto faraónico, com custos de manutenção e funcionamento só suportáveis com tarifas proibitivas ou generosas indemnizações compensatórias, devia ser abandonado.
O problema é que os nossos primeiros-ministros adoram deixar para a posteridade as suas Pirâmides de Gizé. Eu preferiria deixar um País com empresas competitivas, escolas de primeiro Mundo, hospitais sem listas de espera. São gostos e estes gostos só se discutem em eleições.
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