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Correio da Manhã

Opinião
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29 de Outubro de 2003 às 00:00
A existência, crescente e alarmante, de redes de pedofilia e o próprio facto de a nossa Justiça se estar a ocupar de alguns casos mediáticos, chamam inevitavelmente a atenção para o recente relatório divulgado pelo Departamento de Estado americano sobre o tráfico de seres humanos. Segundo este relatório, 116 países ( incluindo os Estados Unidos) traficaram, cada um, mais de 100 pessoas no ano passado. E Portugal não está excluído dessa lista.
A prestigiada revista ‘National Geographic’, inspirada por este relatório, publicou uma impressionante reportagem sobre as modernas formas de escravatura, e revelou existirem hoje, em todo o mundo, 27 milhões de pessoas a viverem em condições de cativeiro – "mais do que foram trazidas de África em quatro séculos de tráfico transatlântico de escravos".
Estes dados levam-nos a ter de enfrentar a chocante realidade de a escravatura não ter acabado há 154 anos, apenas ter sido reciclada em moldes só aparentemente menos brutais. Os métodos utilizados entre os séculos XV e XIX ( rapto ou compra a chefes tribais de hordas de escravos e seu transporte em navios negreiros) já passaram à história. Agora, mulheres, crianças e homens são recrutados não pela força mas por outras formas de persuasão que os levam a acreditar ser possível realizarem o sonho de uma vida melhor. À maior parte aguarda-os um ambiente de trabalho forçado em fábricas ou plantações, confinamento físico, exploração e violência. Há registo de carregamentos de crianças, especialmente do sexo feminino, na China e no Norte da Índia, como se de gado se tratasse. Há dois anos afundou-se no Golfo da Guiné um ‘ferry boat’ nigeriano com 200 crianças-escravas a bordo. Muitas dessas vítimas de traficantes são vendidas ou abandonadas pelos pais. Grande parte é vendida para trabalhar, sem limite de horas, em alojamentos miseráveis, com alimentação escassa e pagamento nulo, mas a maioria destina-se à prostituição infantil.
Os homens que emigram ilegalmente ficam entregues a implacáveis redes mafiosas que os exploram e brutalizam nos seus destinos. As mulheres caem no esquema do tráfico e proxenetismo organizados, tornando-se objectos de compra e venda, de país em país, de bordel em bordel. O tráfico de seres humanos faz-se em todas as latitudes e em todos os sentidos, do Nepal para a Índia, da Guatemala para o México e deste para os Estados Unidos, da Rússia para a Grécia e Bulgária, da Moldávia para a Bósnia. Vendem-se crianças paquistanesas para o Golfo Pérsico, tailandesas para diversos países asiáticos. Milhares delas são mercadejadas no Haiti, no Sudão, no Peru, na Birmânia e na Mauritânia. Pais e maridos vendem crianças e jovens mulheres indefesas. Outras partem, iludidas ou chantageadas, em busca de melhor vida – brasileiras ou chinesas, curdas ou iranianas.
Emigração ilegal, clandestina, é em muitos casos um eufemismo de tráfico. Hoje existem poderosas redes de crime organizado que actuam mesmo através da Internet e que tratam a mulher como uma mercadoria e o fazem da forma mais indigna. Começam por lhes facultar o dinheiro para a viagem, alimentação e hospedagem. Depois obrigam-nas a pagar o empréstimo, a trabalhar em bordéis disfarçados de bares, a convencer os clientes a beber e a oferecer-lhes os seus serviços. O pagamento destes é integralmente para o proprietário do bordel, que o vai descontando na ‘dívida’ contraída. Quando esta finalmente fica paga, a mulher é vendida para outro bordel, noutro país, e o processo recomeça, sucessivamente.
É impossível considerarmos este panorama sem nos interrogarmos sobre o que verdadeiramente se passa em Portugal com as chamadas ‘casas de alterne’, no momento em que as redes de prostituição brasileiras e de países de Leste estão cada vez mais presentes no nosso país. Outra pergunta que se pode fazer tem a ver, ainda segundo o ‘National Geographic’, com a história de um poderoso traficante bósnio que, argumentando contra o facto de o acusarem de tráfico, perguntou: "É um crime vender-se mulheres? Eles vendem jogadores de futebol, não vendem?"
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