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Correio da Manhã

Opinião
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27 de Fevereiro de 2010 às 00:30

As presidenciais ainda vêm longe mas a agitação em torno desse evento já começou. Andava toda a gente a equacionar apenas as candidaturas de Cavaco Silva e Manuel Alegre quando aparece, de surpresa, mais um candidato – Fernando Nobre. E foi este candidato que provocou a agitação de que falo. A direita não se manifestou mas a esquerda acusou o toque. Quer no Bloco de Esquerda, quer nas hostes alegristas sentiu-se uma incomodidade e as reacções nem sequer foram as mais adequadas às circunstâncias.

Fernando Nobre, quer se queira, quer não, sempre foi visto como uma personalidade que se situa à esquerda no espectro político português. Muito embora tenha acentuado no momento do anúncio público a sua condição de independente que apoiou projectos políticos à direita e à esquerda, Mário Soares, António Capucho, Fernando Nogueira, Miguel Portas, etc., a verdade é que a sua imagem está associada a valores de esquerda, eventualmente porque fundou a AMI, Assistência Médica Internacional, e tem procurado estar em todos os teatros de guerra e devastação, ajudando os mais necessitados e os pobres. Como quer que seja, Fernando Nobre reproduz a seu jeito o estilo e a pose de Manuel Alegre quando se candidatou contra Mário Soares e ‘arrecadou’ um milhão de votos. Isto é, um candidato fora dos partidos políticos, um candidato da cidadania, um candidato que aparece, de certa forma, contra os políticos.

Fernando Nobre fez um discurso no monumento aos Descobrimentos que sensibilizou muito boa gente, gente que não se revê na política e nos políticos, gente desiludida com a actuação partidária e que gostaria de envolver-se numa candidatura anti-sistema que mobilizasse grande parte dos cidadãos. Mas não vai ser fácil Fernando Nobre conseguir os seus objectivos. Em primeiro lugar porque Cavaco Silva, à partida, conta com o voto empenhado do CDS e do PSD, enquanto Manuel Alegre fixará o apoio do PS e do Bloco de Esquerda.

Em segundo lugar, porque o seu discurso preferiu uma via fácil, criando um fosso entre ele e os políticos ‘profissionais’. Veio à memória de muita gente o PRD e o discurso moral, que se saldou num desastre. Fernando Nobre fez um discurso galvanizante mas não passou o Rubicão. Agora pode começar a perder velocidade até às presidenciais. A sua candidatura cola o PS a Manuel Alegre tal como a de Pintasilgo colou o PS a Mário Soares. Foi uma lufada de ar fresco mas nunca poderia avançar numa lógica de ‘apartheid’, segregando a política e os políticos, porque os danos são irreparáveis.

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