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Correio da Manhã

Opinião
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13 de Dezembro de 2006 às 17:00
Foi há meses, num canal por cabo. Durante uma entrevista ao presidente de um obscuro clube desportivo, soou o telemóvel do entrevistado. Ele desculpou-se ao repórter e atendeu: “Agora não posso, filha. Estou a falar para a televisão.” O repórter inquiriu se se tratava da esposa. “Não”, disse o homem a sorrir, “é uma senhora que às vezes dança comigo.”
Fosse o mundo um lugar organizado, a ternura do episódio, bem como o leve ilícito que sugere, apenas aconteceriam entre vogais de colectividades amadoras, empreiteiros sem facturinha e demais fauna melancólica dos subúrbios. Supostamente, as pessoas das cidades, sobretudo as que possuem dinheiro e algum “estatuto”, mal teriam conhecimento dessa dimensão paralela onde senhoras dançam assim. O mundo, porém, é uma confusão danada. E as senhoras, ou os cavalheiros que lhes tocam, pelos vistos não escolhem par.
Conforme a autobiografia recorda, Carolina Salgado também dançava. Não me admira: vi-a pela primeira vez no Estádio da Luz, a empunhar um cartaz (“Orelhas, estou aqui!”) e a apontar um dedo. O cartaz era uma referência ao sr. Vieira do Benfica, e o dedo era o médio, dirigido aos adeptos rivais. A sra. Carolina, que descobri então ser companheira de Pinto da Costa, irradiava classe. O exacto tipo de classe que o sucesso literário do momento ostenta.
Não me apetece comentar o livro, que tem sido suficientemente, quase desesperadamente, caluniado. Do pouco que li, retenho o capítulo em que a sra. Carolina aparava as unhas dos pés e os pelos das orelhas ao consorte. Passe certa obsessão da senhora pelos apêndices auditivos, o exercício demonstra zelo higiénico e só por má-fé poderá ser alvo de críticas. O resto da obra, admito, é bastante menos asseado, incluindo acusações de corrupção, espancamentos “correctivos” e todo o rol de actividades que, se provado, define a típica organização criminosa.
O meu problema com ‘Eu, Carolina’ não são as denúncias traiçoeiras dos eventuais crimes, mas o ambiente paroquial em que decorrem e a rústica gente que envolvem: casas de alterne, restaurantes de Gaia, dirigentes com flatulência, cafezinhos, árbitros, advogados de província, capangas baratos e senhoras que dançam. Se calhar, o cinema iludiu-me: quando penso no que rodeia um gang de malfeitores penso em ‘top models’, roletas em Las Vegas, ‘snipers’ sem mácula e sem identidade, mansões em Monte Carlo. Decididamente, não me ocorrem apitos, dourados que sejam, nem a geral pequenez que a sra. Carolina pretende expor. Em Portugal, até o submundo é acanhado.
Fora essa triste constatação, o que sobra de ‘Eu, Carolina’? Sobra uma ou outra matéria de investigação, o ressentimento da autora e um pretexto para o dr. Ricardo Bexiga anunciar anteontem a “promiscuidade” entre a política e o futebol. O dr. Bexiga, note-se, é orgulhoso membro (e ex-deputado) do PS, cujos representantes nacionais costumam fugir do Parlamento para acorrer aos jogos do FCP e louvar Pinto da Costa. Como refere uma personagem do livro, o dr. Bexiga ficou a falar. Mas não diz nada de novo.
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