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Correio da Manhã

Opinião
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13 de Setembro de 2005 às 17:00
Sinais dos tempos. Hoje a idade é um fardo, que ninguém respeita e que pode inclusivamente atrapalhar uma candidatura à presidência. Nem falo das últimas sondagens: a internet, por exemplo, está repleta de graçolas sobre os 80 anos do dr. Soares, equiparando-o (com certo mau gosto) a um morto-vivo ou a uma múmia.
Nada mais tonto, nada mais injusto. Se se derem ao trabalho de reparar, cada declaração recente do dr. Soares é uma homenagem à frescura do pensamento, o qual, de tão fresco, se aproxima com frequência da infantilidade. Provas não faltam. Caso faltassem, bastaria ler o texto que o homem publicou no jornal espanhol ‘La Vanguardia’ sobre as consequências do furacão ‘Katrina’.
O dr. Soares começa por recordar uma viagem a Nova Orleães, informando os incautos de que ali se escuta jazz e de que o Mississipi é um dos maiores rios da Terra. Depois, elabora um breve interlúdio confessional, onde proclama “uma profunda tristeza”, seguida de “uma viva solidariedade para com o povo dos EUA”. De repente, com uma destreza de fazer inveja a muitos petizes, corta para “uma reflexão serena e objectiva” acerca da tragédia.
Ei-la. Em primeiro lugar, o dr. Soares sabia de antemão do ‘Katrina’, que aliás “estava anunciado”. Só Bush ignorou o fenómeno. Em segundo lugar, o dr. Soares preocupa-se com o buraco do ozono. Só a pandilha de Bush, que sozinha esburacou o ozono inteiro, é que não. Em terceiro lugar, o dr. Soares percebe que o “neoliberalismo” transformou os EUA num país de miseráveis. Só Bush, que continua as malévolas políticas de Reagan, não alcança a evidência. Em quarto lugar, o dr. Soares calculou que as tropas no Iraque seriam necessárias para ajudar as vítimas da catástrofe. Só Bush é cretino a ponto de tê-las usado para fins militares, em vez de plantá-las em permanência na Louisiana. Por fim, o dr. Soares exige um novo Roosevelt e termina em tom angustiado: “Quanto sofrimento teremos de suportar?”
Este, meus caros, não é o texto de um velho. Na sua jovial sucessão de banalidades, puras mentiras e incompreensíveis delírios, o dr. Soares não se limita a reproduzir as opiniões dos fedelhos do Bloco de Esquerda: espantosamente, consegue simplificá-las. Uma criança com o sorriso da filha do dr. Louçã não faria melhor. De facto, a idade não é argumento, e isto deveria valer tanto para os direitos do dr. Soares quanto para os seus deveres e obrigações. Em particular, o dever de não proferir obscenidades em público. E, a julgar pelo artigo em causa, a obrigação de escrever um bocadinho melhor. Afinal, embora pareça, ele já não é nenhum menino.
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