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Correio da Manhã

Opinião
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20 de Fevereiro de 2005 às 17:00
Na parte final da campanha eleitoral para as legislativas de hoje, Gilberto Madail (GM) veio dizer aquilo que todos nós já sabíamos, isto é, que não manda nada na FPF. Tenho-o dito vezes sem conta e GM fica sempre muito incomodado, mas, agora, nem sei bem porquê, é ele próprio quem o reconhece: “não tenho os poderes que as pessoas pensam” e aqueles que tem, digo eu, não os utiliza. Ou, então, proclama que os vai usar um dia destes – “e não quando os outros quiserem”.
Algumas pessoas perguntam-me se tenho alguma coisa contra Gilberto Madail. E, normalmente, respondo: tenho! Contra a incompetência, o laxismo, a falta de liderança, a incapacidade de mudar, a intolerância perante as verdades (nuas e cruas), a subserviência perante poderes que não combate, aquela imagem de falsa coragem que utilizou, recentemente, por exemplo, no caso do ataque a Bagão Félix.
É de plástico o presidente da FPF, que depois de tantos meses afastado das entrevistas televisivas concordou, muito a contragosto, em abrir uma excepção ‘em directo’ - e, para quem entende um bocadinho das matérias, foi um desastre! Não afirmou uma ideia nova, todas as coisas que estão na ordem do dia e carecem de uma intervenção rápida do presidente da FPF (como o caso do Conselho de Arbitragem) mereceram uma resposta do tipo: “estou atento, procuramos uma solução...”, pedindo no fundo mais tempo a um tempo que, obviamente, já há muito expirou.
No que diz respeito às dívidas ao Fisco, não foi agora que defendeu a ideia do não pagamento, mas foi agora que entrou em contradição quando denunciou não ter a certeza “se as dívidas existem”...
Quer dizer: o presidente da FPF não consegue ter um discurso coerente, consequente, pedagógico, não corporativista, defendendo quase sempre o indefensável, exibindo, dramaticamente, as algemas colocadas, sem dó nem piedade, pelas associações distritais e pelos clubes, neste caso por alguns presidentes de clubes.
Há dias, no âmbito da discussão das dívidas da FPF e da Liga ao Fisco - a FPF e a Liga, como ‘gestores de negócio’, puseram as mãos no fogo pelos clubes e, agora, sentindo-se ‘queimadas’, tentam esvaziar uma responsabilidade que nunca seria delas se não assinassem um acordo de uma ingenuidade impressionante - GM pôs um ar grave, de homem valente e sem medos, e proclamou: “Não pagamos!” Depois, tirou o ar grave e tentando utilizar uma ironia ‘dejá vu’ (clone não é clown!), susurrou: “Se quiserem venham cá penhorar o edifício da FPF, as receitas da final da UEFA, etc, etc”. GM pode achar-se um humorista de primeira classe, candidato a figurar entre as estrelas do ‘Levanta-te e Ri’, mas não me engana. GM só ‘faz músculo’ porque se coloca debaixo do guarda-chuva dos clubes, sabendo de antemão qual é a posição deles sobre a matéria. Melhor dizendo: GM só disse o que disse depois de Pinto da Costa ter dito o que disse, isto é, a mesma coisa. Só que Pinto da Costa já nos habituou àquele estilo (é o original) e GM não faz nada que não represente uma cópia de péssima qualidade.
A cobardia tende a projectar nos outros a responsabilidade que não se aceita. Alguém disse que a coragem é generosa e a fraqueza egoísta. Nos seus egoísmos e na obstinação de se manter num lugar que os portugueses gostariam ver ocupado por alguém que defendesse o futebol e fosse determinado em mudar aquilo que está profundamente errado, GM avança como argumento os resultados que os nossos clubes e selecções têm conseguido nas respectivas competições internacionais. Primeiro, GM não é ponta-de-lança (pelo menos nos relvados); segundo, no âmbito da Selecção Nacional que realizou o Europeu, se não fossem as críticas e os pedidos de rectificação, nem sei se Scolari tinha ‘conseguido’ perder a final com a Grécia. Essa coisa de termos sido gloriosamente vice-campeões europeus em casa, na forma como decorreu a prova, é uma ‘vitória’ muito discutível.
Ontem, num artigo assinado no ‘Record’, o grande comunicador Jorge Gabriel, homem de grande sensibilidade mas também com a acutilância crítica que distingue os profissionais, pedia a demissão do presidente da Federação (...), para dar à Liga ‘um exemplo honroso’. Meu caro Jorge, como eu te percebo! Mas desengana-te: quanto à falta de vergonha, a política e o futebol são irmãos siameses. Ninguém se demite por questões de carácter. Eles andam aí a tentar enganar um povo ainda muito enganado. Ainda bem que não estamos na América Latina, porque, se estivéssemos, essa falta de vergonha dos políticos (copiada pelos dirigentes desportivos e vice-versa) já teria custado muitos saques e derramamento de sangue. Pessimismo? Dramatismo? Acho muita piada a alguns senhores do futebol e dos partidos.
O futebol pode estar no limiar da sobrevivência mas os adeptos têm de ir para os estádios com um sorriso estampado na cara. O exercício da política está, por culpa das mentiras e das promessas não cumpridas, a bater no fundo mas ‘eles’ continuam a apelar ao optimismo. Quer dizer: o desemprego aumenta, não há crescimento económico à vista, o descrédito sobre a política é cada vez maior, há 1,1 milhões de idosos a viver em condições de miséria, a insegurança paira sobre as nossas cabeças, não se pode adoecer neste país porque o caos está instalado nas urgências dos hospitais, no ensino desensina-se, os jovens não podem ter expectativas de vida, os velhos já não querem rejuvenescer - e ainda nos pedem optimismo, cara alegre e criticam quem os critica!!! Não somos de ferro, não é?
GM fala das ‘atordoadas’ (ele queria dizer atoardas...) de quem rejeita esta FPF e a maneira como ela vê o futebol (se o presidente não concorda com os estatutos e confessa não poder fazer nada para mudar, o que é que ele anda lá a fazer?), mas quem fica atordoado com tanta ligeireza, nomeadamente na abordagem do ‘Apito Dourado’ (GM diz que o melhor é olharmos para a... Alemanha!!!), somos nós com as atoardas do presidente da FPF, que encara o exercício da presidência como uma pena de ‘prisão perpétua’. Quer dizer: ele não concorda com os estatutos, acha que não pode fazer nada nas condições actuais, mas aceita estar preso! Pergunto-me: isto é normal ou representa uma forma desesperada de apego ao poder e de beneficiar das mordomias que a simples ocupação daquele lugar oferece?
Queixa-se GM de que não tem massa associativa. Ainda bem. Se tivesse, há muito que já tinha sido corrido - e sabe como são as massas associativas... Defende também que o presidente deveria nomear os outros órgãos. Ainda bem que essa prerrogativa não está em vigor. É que titulares de órgãos nomeados por GM teriam de ser requisitados, muito provavelmente, ao museu de Madame Tussaud!
Quanto ao ‘Apito Dourado’, sempre me fez muita impressão como é que o presidente da FPF encara o fenómeno como algo de perfeitamente natural. No mínimo, GM deveria ter vindo para a primeira linha da indignação - sem pôr em causa o princípio da presunção de inocência - mostrar que a FPF é a favor da verdade desportiva. Doa a quem doer. A FPF tem a responsabilidade de fazer tudo para não permitir que o joio se misture com o trigo. A verdade é que GM não parece preocupado com isso. Bem questionado sobre se tinha levado hipotéticas denúncias a quem de direito, o presidente da FPF engasgou-se e, subitamente, perdeu a memória: “Não me recordo!”
Por acaso, GM recorda-se que é presidente da FPF?
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