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Correio da Manhã

Opinião
1 de Junho de 2004 às 00:00
Ainda ninguém me convenceu de que “auto-estima” não é o nome de um “stand” de carros usados. E, no entanto, eles bem tentam. Mal terminou o jogo do Porto com o Mónaco, o Presidente da República e o primeiro-ministro, além de 3674 vultos menores, apressaram-se a prever espantosos melhoramentos do nosso ânimo, fruto de um desafio de futebol, três golos e uma taça (vulgo “caneco”).
Continuei sem perceber. Se a auto-estima fosse mensurável pelo incremento sustentado do pagode, eu, à semelhança do dr. Sampaio, admitiria sem problemas que a retoma está à porta. Centenas de milhares de pessoas aos gritos de “vitória” e de “somos os maiores” não serão um exemplo flagrante de produtividade, mas representam, decerto, uma afirmação de relativa confiança nas capacidades próprias.
Infelizmente, o pagode desmobiliza-se depressa. Cinco dias depois de Gelsenkirchen (última aquisição nacional em matéria de sabedoria geográfica), o povo regressou ao ramerrão costumeiro e, apesar de um cachecol aqui e uma bandeira ali, parece consensual a suspeita de que, afinal de contas, os maiores talvez sejam outros quaisquer.
Já medir a auto-estima pela coesão social que promove, como insistem alguns, nem vale a pena. Mesmo no apogeu da festa, a alegria dos adeptos da bola era regularmente interrompida por joviais expressões de ódio a uma misteriosa cáfila de portugueses que, aparentemente, não fervilha de gozo a cada jogada do sr. Deco.
Por fim, se o critério para aferir da auto-estima está ligado à prosperidade económica,o caso também não é claro. No máximo, os triunfos na Liga dos Campeões renderam ao Futebol Clube do Porto e, por extensão optimista, ao País, uns escassos milhões de euros, no fundo uma ajuda insignificante ao controlo do défice. A que se pode acrescentar um pontual estímulo ao tráfego aéreo e ao comércio nas imediações de Dusseldorf, este pouco susceptível de se reflectir positivamente nas nossas balanças, a comercial e a de serviços.
Um cínico achará mais provável que a mítica auto-estima seja exactamente aquilo que parece: um chavão de baixa propaganda política, que, como o conceito obriga, visa atirar aos olhos da plebe uma mão cheia de nada, deixando-a consolada e mansa no período possível. A ser assim, ver as principais figuras elegíveis da nação envolvidas na hipotética fraude não espantaria, mas dar-nos-ia uma ligeira diferença de perspectiva sobre a natureza de quem nos lidera.
Por isso, continuo a acreditar no tal ‘stand’ de automóveis. Questão de inocência. Questão de higiene.

albertog@netcabo.pt
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