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Correio da Manhã

Opinião
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8 de Fevereiro de 2004 às 00:00
Um dia, já na minha adolescência, calhou em falar com o meu avô sobre o Ti Joaquim. Muitos anos antes tinha havido um assalto à Venda do Pacheco onde, entre outras coisas, roubaram um fardo de bacalhau. Dias depois do assalto, um vizinho do Ti Joaquim acusou-o de ter roubado o bacalhau, pois surpreendera a família do Lameiro a comer do "fiel amigo", sem sequer ser dia de festa.
O povo do lugar alinhou com a acusação e alcunhou o Ti Joaquim de ‘bacalhau roubado’, dando, assim, como confirmado, o roubo de que ele não passava de mero suspeito. Mais tarde descobriu-se quem eram os ladrões.
O meu avô decidiu presentear o Ti Joaquim com um bacalhau. Dizia que o fazia em nome de todo o povo e que o "bom nome" de um homem era um direito inalienável, a par de outros direitos então, à época (e agora?) tão espezinhados.
Vem esta pequena história a propósito dos quase mil arguidos que todos os anos são libertados sem qualquer reparação. Reparar, tão só reparar, porque nunca mais poderá evitar as consequências pessoais e colectivas do opróbrio que impõe a estes cidadãos.
Que o digam os descendentes do Ti Joaquim do Lameiro, que ainda hoje são ‘bacalhau roubado’!
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