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Correio da Manhã

Opinião
8
20 de Setembro de 2004 às 00:00
Quero partilhar uma experiência chocante. Que começou por não ser chocante. Numa rua de Lisboa, a João Crisóstomo, atravessava eu por uma passadeira quando um automóvel que virava à esquerda me passou uma tangente. Ia uma senhora gorda ao volante e eu até percebi o ela não ter parado.
Mediu os meus passos, viu que podia passar à minha frente e acabou por fazer uma manobra mais segura do que ter travado. Mas a lei dizia (a lei ali é um semáforo a acender e apagar uma seta amarela) que ela devia ter parado. Ela não parou, nem um tipo de mota que me ignorou. Mas ela, com a consciência pesadita, fez--me um aceno de mão e soletrou um “desculpe”, que eu li nos seus lábios.
Fiquei com a manhã mais leve. Não calculam o prazer que me dá darem por mim. Ou, melhor explicado pelo avesso, vou aos arames quando me descubro invisível. Vir de elevador no meu prédio, entrar um rapaz que conheço desde o colo da mãe, e nem água vem nem água vai, enfurece-me.
Já me apanhei com um monólogo alto, virado para o espelho e com o malcriado a olhar para mim como se eu fosse maluco: “Hei, será que vou aqui? Será que existo?” Faço isso porque sei que ensinar bons costumes pode custar só duas descidas de elevador. À segunda vez que a minha filha, com três anos, não cumprimentou o vizinho que já lá estava, ergui-a à altura da cara dele e repeti-lhe (porque tinha havido uma vez precedente): “Este senhor gostava de te ouvir dizer ‘bom dia’”. Não foi preciso terceira vez. Até hoje, muitos anos depois.
Se bem se lembram, havia lá atrás uma senhora gorda, que quase me atropelou e a quem eu devia uma simpatia. Ela parou um pouco adiante, porque o semáforo ali era impositivo, de encarnado vivo. Eu sou um tímido, mas a verdade é que desde há uns tempos optei pela militância nestas coisas.
Acho que Bagão Félix deveria premiar com descida de escalão de impostos o empregado de mesa que sorri, o transeunte que toma a iniciativa de oferecer ajuda a uma pessoa notoriamente perdida, um pai que ensina a filha a cumprimentar os vizinhos (aqui admito estar a fazer lóbi por causa própria), a condutora que acena e pede desculpas.
Como suspeito que o Bagão Félix não liga a estas minudências (mas faz mal, haveria menos úlceras a serem comparticipadas pela Segurança Social), tomei a iniciativa de atravessar a rua para dizer à senhora: “Gostei do seu gesto delicado, é só.”
Atravessei a rua, aproximei-me da janela da condutora, inclinei-me e foi então que ela, atenta a que o encarnado se desfizesse, deu por mim. Reconheceu-me logo e não me deixou dizer coisa alguma. Gritou-me: “Eu já lhe pedi desculpa, não me chateie!” E acelerou porque fez verde nesse momento.
Envergonhadíssimo, ergui-me, na esperança de que ninguém tivesse dado por nada. Mas não, o tipo de motocicleta que tinha acompanhado a cena desde a curva, lançou-me: “Deixa a mulher em paz!”, e também acelerou. Olhei para os telhados, não havia ‘snipers’, suspirei de alívio e recolhi ao meu lugar de trabalho.
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