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Correio da Manhã

Opinião
23 de Agosto de 2005 às 17:00
Alguns comentadores perversos, felizmente escassos, condenaram o eng. Sócrates por se ausentar no Quénia enquanto o País ardia. Chegado do safari, aliás interrompido por pelo menos dois telefonemas de António Costa (um rematado chato), o primeiro-ministro mal teve tempo para pendurar em casa uma cabeça de gazela e quatro peles de zebra. Logo que pôde, esclareceu o assunto: “A exploração política do tema das minhas férias tem sido demagógica, injusta e mesquinha.” Disse quase tudo, e eu digo o restante: as críticas são totalmente desprovidas de sentido. Por mais de um motivo.
Em primeiro lugar, explorar as férias de um político não custa nada, se comparado com a autêntica exploração que esse político realizou no continente negro. Ao contrário do que se tentou fazer crer, o eng. Sócrates não passou estas semanas numa ilhota das Caraíbas, a degustar ‘margaritas’ e romances de espionagem. O homem, fiquem sabendo, esteve quinze dias num país ainda mais pobre que o nosso, com uma democracia ainda mais débil que a nossa, índices de corrupção ainda mais elevados que os nossos (acreditem) e uma tendência para os fogos florestais muito semelhante. Se a isto juntarmos uma variedade de insectos equivalente ao número de empreendimentos no Algarve e os referidos telefonemas de António Costa, vemos que o safari não devia inspirar inveja, mas admiração. Ou piedade.
Em segundo lugar, é absurdo achar-se que a viagem africana do eng. Sócrates prejudicou o combate aos fogos: desde que ele voltou, Portugal arde com a mesmíssima intensidade. A única diferença que o regresso do homem suscitou foi um incremento na mistura de trivialidades, delírios e arrogância obtusa que definem o PS ‘moderno’. Envergando a solenidade que só o vazio confere, o eng. Sócrates saudou os bombeiros, pediu à Europa (com largo descaramento) os meios que alegadamente possuíamos em abundância, prometeu dois planos ‘estruturais’ para depois do Verão e armou uma característica birra.
De facto, usar as férias do primeiro-ministro como instrumento político não é apenas mesquinho, mas estúpido. O Governo não sabe a quantas anda, quer o eng. Sócrates esteja no Quénia ou em S. Bento. De resto, a julgar pela sua acção a respeito dos incêndios e da maioria das matérias que tutela, o Executivo podia partir em peso, e de vez, para a selva que lhe aprouvesse, que não notaríamos a diferença. Ou notaríamos: na diminuição de compinchas nomeados para cargos públicos, no decréscimo de iniciativas grotescas e na brusca redução de vergonhas diárias. Quem disse que com Santana batemos no fundo? Se calhar, o fundo era falso.
albertog@netcabo.pt
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