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Correio da Manhã

Opinião
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2 de Fevereiro de 2008 às 00:00
Disse Paulo Bento, após a vitória sobre o Penafiel, que há algum cansaço do exterior e do interior (sublinho ‘do interior’) em relação ao treinador. Disse ainda Paulo Bento que o tempo normal para estar num clube está a passar e acha-se cansado e desagradado com certas coisas. Ponto não menos importante desse conjunto de declarações: não se sente pressionado pelos adeptos. As críticas que fiz a Paulo Bento resumem-se a quatro pontos:
1. Não cumpriu, enquanto técnico (como muitos outros), o ciclo de formação que daria maior sustentação para se atirar ao desafio de orientar um dos mais prestigiados emblemas nacionais. É de elementar justiça que, neste particular, a sua responsabilidade é praticamente nula: nem o Sporting viu problemas nisso; nem a Associação Nacional de Treinadores; nem a FPF... O jovem técnico leonino limitou-se a aproveitar uma oportunidade extraordinária que lhe quiseram dar, promovendo o seu prematuro endeusamento.
2. Tornou-se co-responsável de todas as aquisições que o Sporting realizou, algumas das quais de valor bastante duvidoso, como ainda hoje muitos reconhecem.
3. Do ponto de vista da orientação desportiva (técnico-táctica) tem alguma dificuldade em reconhecer que, cada vez mais, um treinador não se pode fechar dentro de um casulo constituído por um único sistema de jogo. Os técnicos de futebol sabem que, se conhecerem bem os adversários, podem e devem fazer mudanças ao longo do jogo não apenas para dar respostas às ‘questões’ colocadas pelos adversários (potenciando-lhes as fracturas) mas também para tirarem partido da sua capacidade de agilização táctica.
4. Não soube e creio que não sabe conviver com a crítica – mas isso, infelizmente, é um problema não apenas do Futebol ou do País (a obsessão do controlo dos comentadores passou a ser um desígnio nacional!!!).
Parece mais ou menos um dado adquirido que, até agora, do ponto de vista institucional, não faltou nada a Paulo Bento. Desde a aplicação do ‘cognome’ de ‘Ferguson do Sporting’ até às sucessivas demonstrações de solidariedade manifestadas pelo presidente Soares Franco nada faltou. Faltou, como sempre disse, a escolha de mais e melhores jogadores, mas nesse particular Paulo Bento confessou-se sempre satisfeito com a matéria-prima oferecida e, portanto, disso não se pode queixar, sendo esse talvez o seu ‘pecado original’.
O episódio recente da aposta em Farnerud, que lhe valeu alguns elogios, é pura e simplesmente uma embirração. Paulo Bento tem de se habituar à realidade que o rodeia e não àquilo que gostaria que fosse o seu ‘mundo’: os treinadores vivem de resultados e as suas opções são escrutinadas, em permanência, pelos adeptos e pela Comunicação Social. Acontece em todo o Mundo, com maior ou menor incidência. E acontece não apenas com os treinadores, mas com os jogadores, presidentes, dirigentes e árbitros. Até os críticos não escapam às críticas e às pressões. É neste mundo que vivemos e as regras são estas para todos. Não é uma moda.
As mais recentes declarações de Paulo Bento entendo-as como uma forma de pressão (supletiva) sobre o Sporting. Depois de duas vitórias importantes, Bento tenta valorizar-se. Queixa-se de saturação. Soares Franco diz que não há muito a fazer relativamente ao contrato. Será que Paulo Bento está a tentar esticar a corda para ver reforçada a sua situação contratual para além de 2009?!
Preocupante é a forma como, em Alvalade, estão a ‘deixar cair’ Miguel Veloso. O seleccionador nacional não foi nada meigo para o jogador (o Sporting não tem, igualmente, uma parceria com Fátima Lopes?) e, se ele revela excesso de peso, essa é uma crítica indirecta aos métodos de trabalho seguidos em Alvalade. De facto, vivemos num país de favoritismos e discriminações.
NOTA – Com a profusão de situações que vêm acontecendo em Portugal, culminadas agora com as denúncias tipificadas do bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, algo que estamos todos fartos de saber, verdadeiramente espantoso é ainda ninguém ter sido preso.
NOTA 1 – A pior coisa que pode acontecer a um País e à Democracia é tomar-se consciência de que a corrupção não tem ou não merece castigo.
NOTA 2 – Não há crescimento económico enquanto vingar uma mentalidade de matriz salazarenta.
NOTA 3 – A remodelação governamental é um sinal claro de que o primeiro-ministro começa a claudicar. Mesmo sem oposição.
NOTA 4 – Talvez seja dramático pensar-se que a alternativa a José Sócrates pode ser mesmo... José Sócrates.
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