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Correio da Manhã

Opinião
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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco Moita Flores

BIBÒ PORTO!

(...) Vou dar pontapés no sofá e gritar indignado para a minha filha, que não percebe nada das loucuras do pai...

Francisco Moita Flores 18 de Maio de 2003 às 00:11
Vou escrever sobre uma coisa que gosto mas não sou especialista. Sobre futebol. A única coisa que aí existe de mim é a emoção e o Sporting. E a maior irracionalidade que desculpa golos com a mão desde que sejam a favor do meu clube. Que tolera insultos ao árbitro quando prejudica o Sporting. Ou mesmo quando não prejudica. Ali, olhos espetados no campo, lá do cimo da bancada, babo-me com o drible do Pedro Barbosa, com o passe do João Pinto, com o golo de qualquer um, mesmo que seja fora-de-jogo. E irrita-me, deve ser a única coisa que me irrita, é ir a Alvalade e ver o Sporting jogar mal. Nem a política, nem os múltiplos debates judiciários, nem qualquer outro mundo do meu pequeno mundo me consegue irritar. E depois, à saída do estádio, volta o acto de contrição de sempre, a auto-crítica porque me zanguei, porque dei um pontapé no espectador da frente no momento do penálti, porque me levanto e de mão na anca grito indignado para os que estão atrás: Já viram isto? É uma roubalheira!, e dou comigo a rir de mim.
Mas este sportinguismo desenfreado é um acto marginal. Um mergulho voluntário, apaixonado e sem reservas para a grande festa que é a vivência de qualquer jogo em Alvalade. Mesmo nos tempos do jejum penitencial de 18 anos. Nenhuma outra massa associativa conseguiria com o mesmo entusiasmo suportar tão desgastante travessia do deserto.
Devo ainda confessar que nem sempre fui um adepto fiel. No tempo em que o Benfica fazia do futebol um acto de magia, desisti muitas vezes de ir a Alvalade para correr atrás do Mestre. Para quem gosta de futebol, ou melhor, de ver jogar futebol, é um privilegiado quem testemunhou o génio de Eusébio. A força, a elegância, a inteligência, a intuição de quem nasceu para fazer do seu talento um espectáculo. Tenho gravadas na memória dezenas de golos e de jogadas do Mestre. Sobretudo a sua alegria, o seu desportivismo a sua entrega ao trabalho de equipa onde outros talentos deliciavam multidões: Coluna, Simões, José Augusto, Rui Rodrigues, Jaime Graça, Santana, Toni, Artur Jorge, Torres. Coisa igual, e também para privilegiados, foi ver Damas a defender a baliza do Sporting. Nunca em Portugal se viu nada assim. Até apetecia ver o Sporting a defender para perceber como aquele homem-pássaro gatinhava pelos ares para ir buscar com mãos de ferro a bola que já toda a gente gritava: Golo!
Já se compreendeu, mesmo com esta generosidade toda pelo meio, que aquilo que eu queria agora, e todos os anos, é que o Benfica jogasse bem, que o Porto jogasse igual ou melhor, como no tempo dos sábios como Oliveira, Sousa, Pacheco,João Pinto, Seninho ou ainda no tempo desse prodígio chamado Cubillas, mas que o Sporting ganhasse tudo e a todos. Ser doente é isto mesmo. E desta doença só a sepultura me há-de curar.
Mas se tenho a coragem de expor aqui a minha demência, deixem-me que o outro lado da loucura, aquele que gosta de ver futebol, reconheça e rejubile por saber o Porto na final de Sevilha. Este Porto que foi um justo campeão e que, se a rapaziada estiver afinada, chega lá e despacha os escoceses com uma perna às costas. Tenho pena de não ter arranjado bilhete. Ia, nem que fosse em peregrinação, porque ali, ou aqui, a ver pela televisão, vou dar pontapés no sofá e gritar indignado para a minha filha, que não percebe nada das loucuras do pai: Já viram isto? É uma roubalheira!
E não estou a torcer assim apenas porque é um clube português. Mas porque o FCP está a jogar futebol como poucos na Europa o sabem fazer. Ainda por cima com uma alegria que recorda o meu Sporting e uma maestria que recorda o meu Benfica do velho Mestre. Quando voltar a esta página já tudo se consumou. E quero voltar na ressaca da festa. Que bem a merece o Porto e a merecem todos aqueles que gostam de bom futebol. Bibò Porto, carago!
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