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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

Bin Laden e os mitos

Se Barack Obama tivesse anunciado a morte de Bin Laden como o engº Sócrates anunciou o pacote de medidas do FMI, diria que o líder da Al-Qaeda não estava vivo, que o tiro na cabeça não o deixara bonito, que não era do sexo feminino.

Francisco Moita Flores 8 de Maio de 2011 às 00:30

 E a coisa passava ainda com mais tranquilidade, embora a terrível verdade se soubesse no dia seguinte, e os festejos pelo negócio com o FMI ainda seriam maiores. O Presidente americano optou por uma linguagem mais precisa. O terrorista está morto e não mostro fotografias do cadáver nem dos ritos fúnebres porque poderiam servir de propaganda e acirrar os ódios vingadores. Fez bem Barack Obama.

A exibição da morte de um líder religioso e carismático, das encenações litúrgicas do seu funeral, seria uma centelha de clamores, protestos ou aplausos, que poderiam incendiar outras tempestades. Também fez bem tê-lo morto. Fosse em legítima defesa ou como simples execução. Nenhum país do mundo, a começar pelos EUA, quereria ter dentro das suas fronteiras um prisioneiro que fora responsável pela morte de milhares de inocentes por todo o mundo. Talvez só Portugal aceitasse. Contra o perdão de um bom pedaço da dívida em que estamos afundados. No entanto, não deixo de reconhecer que a recusa da propaganda americana com a morte de Bin Laden, país fértil em propagandear vitórias, não esmoreceu o nosso governo, mestre liminar da propaganda.

O primeiro-ministro informou-nos do que não era o acordo com o FMI e desmentiu boatos. Ou seja, viemos a saber que alguns dos seus ‘nãos’ nunca tinham sido hipótese de ser ‘sins’ e no dia seguinte o ministro das Finanças, que não entra na lista de deputados, veio dar o resto das notícias, ou seja, as notícias más. Veio mostrar as fotos de Bin Laden e o local do oceano onde foi sepultado. Teixeira dos Santos passa à história como o carrasco, o engº Sócrates como o símbolo da esperança. Esta narrativa inversa, entre os acontecimentos explicados por Barack Obama e pelo primeiro-ministro português, é exemplo de como se procura apagar as possibilidades de um terrorista se transformar em mito e, por outro lado, como o governo que chamou traidores a todos aqueles que há muito percebiam a inevitabilidade do FMI se compromete com o mesmo FMI e faz com que a derrota, e hoje sabemos pelo estendal da dívida, a pesada derrota se transforme num mito de vitória e de iluminada esperança. Roland Barthes afirmava que os mitos são falas da História. Pouco importa a sua verdade. São sinais de comunicação que reforçam sociabilidades. Por maior que seja a falsidade onde se suportam. Como nestes dois casos.

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