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Correio da Manhã

Opinião
4 de Fevereiro de 2012 às 01:00

Cavaco Silva era, então, primeiro-ministro e o cavaquismo ensaiava já a derrocada. Nessa época, deram-se os primeiros passos para algumas reformas estruturais, abriram-se sectores importantes à iniciativa privada e lançaram-se benefícios sociais relevantes, com avanços também na Saúde e na Educação. No entanto, já então e no pós-cavaquismo, não houve coragem para colocar travão ao crescimento descomunal do Estado e fingiu-se não perceber que o tecido empresarial estava longe de se afirmar com autonomia e sustentabilidade, dependendo, em grande parte, dos compadrios que o polvo estatal incentivava e da aplicação nem sempre séria ou ajustada dos dinheiros públicos. Os pecados atravessam vários presidentes e Governos: Soares e Sampaio, mas também Guterres, Barroso e Sócrates, sem esquecer o meteoro Santana. Todos, de uma forma ou de outra, por acção ou omissão, foram colocando tijolos na negra situação de hoje. Aliás, seria um exercício curioso identificar quantas das proeminentes figuras que marcaram as últimas duas décadas ainda continuam a andar por aí, na política e nos negócios, assobiando para o lado como se nada tivessem a ver com a crise, e perorando sobre os seus fundamentos e as soluções recomendáveis.

Em breve, Zé Maria poderá ser mais um número nas estatísticas que assinalam que um em cada três jovens não obtém emprego. A geração dele vai sofrer os impactos de avalanches de erros sustentados na demagogia, no irrealismo, na desonestidade (intelectual e não só) e na falta de visão de gente que, da direita, da esquerda ou do centro, foi laboriosamente colaborando no empobrecimento geral. Não admira que os portugueses sintam as suas crenças na democracia abaladas, perante a austeridade (que nunca parece suficiente), a voracidade do fisco e a destruição acelerada da classe média e do emprego.

Nem sequer houve coragem para intervir a sério na Justiça. O bafiento ritual da abertura do ano judicial, como esta semana se viu, é a melhor imagem de um sistema que se preocupa mais com ele próprio do que com os cidadãos. É o triste retrato de um País incapaz de se reformar. Cavaco foi o bispo que presidiu à missa. 20 anos depois, o País está pior. Muito pior. Para onde foram os milhares de milhões de euros que a Europa cá despejou? Até certa altura iam chegando de borla ou quase. Agora é preciso pagá-los. Com língua de palmo, como se vê. Boa sorte Zé Maria!

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