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Correio da Manhã

Opinião
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21 de Abril de 2013 às 01:00

O jornalismo corresponde à sociedade em que se integra. Os EUA fazem parte do caldo de cultura em que nos integramos, a que chamamos civilização. Eles são a continuação da Europa por outros meios. Para o bem e para o mal, os EUA são o nosso futuro. Em muitos aspectos da política, cultura, relações sociais e economia, seremos amanhã o que eles são hoje, queiramos ou não. Mais do que qualquer outro país, despertam por isso tanto amor e tanto ódio. Às vezes em simultâneo.

Acresce o poder da linguagem audiovisual americana, cuja ‘naturalidade’ leva milhões a sentirem uma estranheza ao contactarem com produtos culturais do seu próprio país que não sentem consumindo os americanos. Quando se diz "somos todos americanos" fala-se também desta partilha profunda de valores e da sua mostração audiovisual. A produção audiovisual americana põe a América no nosso cérebro e no nosso quotidiano.

Recebemos de Boston as imagens em directo. Estamos lá. E, como Boston faz parte do nosso universo, estamos lá com os americanos, com os emigrantes e maratonistas portugueses. Em comparação, "não estamos" no Iraque, parte de "outro mundo".

Mas nem todos os acontecimentos dramáticos americanos evoluem para uma tragédia televisiva. A explosão no Texas, mais mortífera, desapareceu dos ecrãs. Foi dramática, mas não trágica, que é um drama de outra ordem.

Boston reunia características da tragédia televisiva, género que analisei no livro do mesmo nome, de 2006. Foi um ataque terrorista num local público, em directo e com muitas imagens disponíveis. Vitimou inocentes, incluindo crianças, numa acção boa e alegre, a maratona. Teve todas as personagens: vítimas, protagonistas, heróis, familiares, testemunhas, culpados, bodes expiatórios. Os suspeitos representaram como ninguém a ideia, associada ao terrorismo e muito própria da cultura americana, de que "eles estão no meio de nós", eles "são como nós". Acresceu a espectacularidade própria da América: acções policiais imediatas e visíveis, morte ou captura dos suspeitos. Não são tragédias televisivas todos os dramas do mundo: só aqueles que têm de ser, como as tragédias vindas das profundezas da nossa cultura comum, nascida em Atenas e em Jerusalém.

A VER VAMOS

'É O AMOR...': HOMENS NO MAR, MULHERES EM TERRA

Em ‘É o Amor...’, João Canijo fez um filme com uma actriz profissional, Anabela Moreira, juntando-se à vida de Sónia e de outras mulheres do peixe de Caxinas. Canijo revela de novo uma profunda compreensão das mulheres. O filme ultrapassa géneros: a actriz representa a ficção tentando inserir--se na realidade, confronta a pobreza actual da ficção com a força da vida das pessoas comuns. Nos monólogos que confidencia para si mesma (para nós), como que explica o filme: “A Sónia é mais interessante do que eu.” Não mais que ela, mas que a ficção, que anda a perder terreno para o audiovisual de realidade. A TV já o percebeu há muito. Este filme é uma vitória da mais real das ficções sobre a ficção desinteressante.

JÁ AGORA

A MESMA EUROPA, DOIS SISTEMAS

A reportagem ‘Os Eleitos’, de Carlos Rico (SIC), comparou em 43 minutos a vida política de ministros, deputados e autarcas de Portugal e da Dinamarca. Informativa, austera, sem demagogia, mostrou culturas políticas e de cidadania nos antípodas: uma democracia profunda, funcionando bem, e uma democracia disfuncional. Na Dinamarca, sim, o povo é quem mais ordena.

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