Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
4
6 de Novembro de 2004 às 00:00
O governo decidiu esta semana criar portagens à entrada de Lisboa e do Porto para os automobilistas que utilizam viaturas privadas. À primeira vista as intenções que presidem a uma decisão tão drástica parecem ser positivas.
O número de automobilistas que todos os dias se dirigem para o centro destas duas cidades é arrepiante. Das sete da manhã até às dez todas as entradas estão entupidas e a circulação faz-se a passo de caracol. São horas de stresse para conseguir chegar a qualquer lugar.
A situação agrava-se quando obras como a do túnel do Marquês em Lisboa se transformam num funil que bloqueia todo o trânsito no centro.
Pode bem dizer-se que Lisboa e o Porto já não comportam o parque automóvel que lhes está adstrito. A população flutuante que todos os dias entra e sai destas duas cidades é também elevada. E como é obvio toda a gente vem na sua viatura particular.
Uma fotografia aérea de Lisboa, apesar de todos os esforços da CML para o impedir, é uma imagem do caos. Os parques cheios e viaturas estacionadas em todos os lugares possíveis e impossíveis. Em cima de jardins, nos passeios, nas zonas com relva, nos locais proibidos, assinalados com a respectiva placa, nos lugares de deficientes, nas portas de garagens dos prédios.
Admito, em tese, que a portagem possa reduzir esta balbúrdia. Mas confesso as minhas apreensões. Para que a portagem produza o efeito redutor que se pretende é necessário que à entrada das cidades referidas haja estacionamento para parquear as viaturas.
Qual é o retrato da situação? Lisboa e Porto dispõem de parques de estacionamento nas suas entradas para guardar todas as viaturas? Outra inquietação é evidentemente o transporte público para todos os pontos das cidades. A Carris e o Metro tem capacidade instalada para transportar de forma sistemática e sem perdas de tempo os passageiros que a portagem vai gerar? Chegar a horas ao emprego, circular nos Ministérios, nas repartições públicas, nos centros comerciais, vai ser fácil ou será necessário esperar 30, 40 ou 60 minutos pelo próximo autocarro?
Quero crer que o governo não desencadeou uma medida desta natureza sem medir bem estas duas vertentes – parques de estacionamento suficientes e transportes públicos eficazes. Não basta dizer que se pretende seguir o modelo britânico se porventura as infra-estruturas que garantem essa acção de ordenamento não existem ou são insuficientes.
Os automobilistas já são causticados com os impostos tradicionais e com uma série de ‘impostos’ camuflados, como sejam o ‘selo de circulação automóvel’, o preço dos combustíveis agravados com taxas variadas, os preços dos automóveis com adicionais de impostos não praticados noutros países europeus, as portagens nas auto-estradas e nas SCUTS. Agora chegam as portagens para entrar nas cidades, em nomes de uma melhor circulação automóvel. Se essa melhoria não se verificar temos mesmo o caldo entornado.
Ver comentários