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Correio da Manhã

Opinião
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22 de Janeiro de 2003 às 00:00
Quem trilha há várias décadas os caminhos do jornalismo, e acredita que já coisa alguma o poderá surpreender, ainda depara, de quando em vez, ao virar uma página (que funciona como a esquina topográfica do desconhecido), com algo inesperado, inusitado e confusiforme. O mais frequente, e ainda assim chocante e perturbador, é o facto de a notícia de um mesmo acontecimento ter sido redigida, em órgãos diferentes, não apenas de forma diferente (o que será natural), mas revelando pontos de vista e conclusões diametralmente opostas e contraditórias.

A propósito da extinção do crédito bonificado à habitação, que este ano começa a representar uma importante dedução de encargos para o erário público, recordo-me de um exemplo flagrante desse género de contradição. Como se sabe, o Partido Socialista decidiu apresentar há meses, no Parlamento, um diploma destinado a repor essa bonificação, no que foi logo apoiado pelos partidos à sua esquerda. Mas os partidos da coligação governamental aprovaram, na Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, um parecer que considerou inconstitucional o projecto de lei socialista. Houve no Parlamento um debate inflamado a esse respeito, mas a maioria fez prevalecer os seus votos. Pois a notícia do que sucedeu no plenário da AR foi tratada de forma contraditória: para uns, a tónica assentou na vitória dos partidos do Governo, que tinham logrado bloquear a discussão do tema, por o diploma violar o direito de exclusiva iniciativa do Executivo em matéria orçamental; para outros, a vitória fôra dos partidos da Oposição, por terem conseguido forçar o debate parlamentar sobre o crédito bonificado.

Este exemplo tem o mérito de nos encaminhar para o facto de a verdadeira questão, que parece escapar ao entendimento de algumas pessoas, não estar na obtenção ou não de crédito para adquirir casa, mas na opção entre comprar e arrendar. Enquanto as forças políticas no poder, estas ou outras, se não capacitarem da necessidade de uma revitalização séria do mercado do arrendamento e em particular do incentivo ao chamado Arrendamento Jovem, só resta aos casais acabados de formar sucumbir à campanha absurda a favor da dívida e assumir um compromisso bancário que os irá manter manietados e inseguros ao longo de anos.

No Verão passado surgiu, em local onde costumo passar os meus ócios, um grande "outdoor" da Juventude Socialista, em que li mais ou menos o seguinte: "Queremos a nossa casa! Não à poupança de tostões quando se corta o futuro a milhões! Pelo direito à habitação para todos!" O painel que, diga-se de passagem, era curiosamente ilustrado com as figuras de um casal sentado em posição muito pouco ocidental e cujos traços mais faziam recordar fácies asiáticos, continha ainda a indicação de "Campanha para a reposição do crédito bonificado".No Outono, o projecto de lei socialista foi às urtigas e o "outdoor" desapareceu. Mas o verdadeiro problema subsiste, e nada surge no horizonte que arrume de vez com a demagogia da casa para todos e a ilusão do património, pois quem o tem é a banca.

Não devemos esquecer que a compra a crédito de habitação se insere no panorama mais vasto do endividamento crescente dos portugueses. Não me refiro, claro, ao sobreendividamento do Estado, mas ao das pessoas, dos casais, dos núcleos familiares.

Quando tudo (ou quase tudo) se pode adquirir a prazo, quando se aceita tacitamente a propaganda enganosa do compre agora (ou vá para férias) e pague depois, e os bancos rivalizam na apresentação das formas mais atractivas e na aparência menos onerosas de comprar seja o que for, é importante que as pessoas pensem antes de adquirir um bem dando como única garantia esse mesmo bem. É que, na realidade, não estão a comprar nada, apenas a contrair uma dívida.
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