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Correio da Manhã

Opinião
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29 de Agosto de 2007 às 09:00
Podia ter sido mais uma história de derrota perante as adversidades. De um outro filho de imigrantes que não conseguiu vencer as inúmeras barreiras ao seu redor, terminando em exclusão social, sem horizonte, nem esperança. Mas, desta vez, nasceu um campeão do Mundo.
A história feliz de Nélson Évora deve fazer-nos pensar. Vindo para Portugal, com a família imigrante, aos cinco anos, só aos 18 anos teve acesso à cidadania portuguesa. Hoje com 23 anos, tem o 12.º ano completo, sonha também com outros ‘voos’ nos estudos de Marketing, para juntar aos saltos que consegue no triplo e no salto em comprimento. A sua convicção religiosa – membro da fé bahá’í – torna-o também militante da causa de “uma só humanidade”. Neste percurso, o mérito é, seguramente e antes de tudo, seu e da sua família. Apesar de todas as contingências negativas que qualquer família imigrante experimenta, conseguiram chegar aqui. Honra lhes é devida. São um exemplo para todos nós.
Mas neste trajecto de sucesso na integração de um filho de imigrantes, importa também sublinhar alguns outros aspectos que seguramente contribuíram para este êxito. Segundo a Lusa, ter sido vizinho de João Ganço, seu actual treinador, foi um factor crítico de sucesso. Vizinho do andar de baixo, professor de Educação Física na Escola da Ramada, em Odivelas, este português foi além do preconceito e viu no seu jovem vizinho cabo-verdiano um enorme potencial para o desporto. Era, segundo ele, “um miúdo irrequieto, franzino e muito polido. Gostava de correr, sempre alegre, e era sempre ele que ganhava”. Acrescenta, mais adiante, que também ele evoluiu muito graças ao trabalho com Nélson Évora: “Sem o Nélson e as marcas que ele fez não me teria debruçado tanto sobre o triplo”, reconhece sem qualquer problema o técnico que incessantemente tira notas, estuda, procura evoluir e corresponder ao avanço do pupilo”. O despacho da Lusa salienta ainda um outro factor: Nélson era muito amigo dos filhos do treinador, Tiago e David, integrando com eles um grupo de praticantes de atletismo ao nível local.
Estes aparentes fait divers são, neste contexto, muito relevantes. Além da evidência do que um país de acolhimento – no caso, Portugal – pode ganhar através da integração de talentos, torna--se muito claro que com Nélson Évora aconteceu um modelo de integração. Na vizinhança, em contexto de proximidade, foi estabelecida uma ponte entre uma família portuguesa e uma família imigrante. Ambas se abriram e da interacção, da vontade de vencer e da aprendizagem mútua nasceu uma história de integração de sucesso. Juntos, conseguiram chegar mais longe.
Ainda que não seja possível aos nossos filhos – de imigrantes e de portugueses – chegar sempre a ser campeões do Mundo e a entrar para o livro da fama, muitas vitórias conseguiremos se, portugueses e imigrantes, nos unirmos na construção de um futuro comum, com lugar para todos.
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