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Correio da Manhã

Opinião
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14 de Dezembro de 2003 às 00:00
Caro Senhor,
No dia 9 de Novembro passado, o Correio da Manhã tinha para publicação uma notícia que envolvia o seu nome. Contactámo--lo por isso. O sr. entendeu, através de interposto assessor, não dever fazer qualquer comentário. E o CM, como mandam as regras, publicou a notícia fazendo alusão a essa sua opção.
A notícia era desagradável, reconheço. Daquelas que não desejamos a um inimigo. Mas era – e é – uma notícia.
Em resumo: o sr. estaria citado no processo Casa Pia pelo testemunho de três jovens; e disso mesmo o senhor teria sido informado durante as horas em que esteve no DIAP.
Em nenhum momento produzimos qualquer comentário opinativo. Não dissemos que os testemunhos eram verdadeiros. Não dissemos, sequer, que o Ministério Público os considerava fiáveis. E, muito menos, que o sr. era suspeito ou iria ser constituído arguido. Nada! Fomos factuais e não fomos uma linha além daquilo que "fontes" altamente credíveis nos asseguraram e ainda asseguram: o seu nome foi referido por três jovens! Ponto.
O sr. reagiu depois da forma que se sabe. Foi agressivo e, em relação ao jornal que dirijo, chegou a ser insultuoso.
Devo dizer-lhe que, apesar de tudo, compreendi. Nenhum cidadão está livre de ser difamado. A sua reacção indignada, ao contrário de outras no mesmo processo, submissas e democraticamente reverentes, teve para mim, em primeira instância, o valor de uma indignação de Homem, ofendido e difamado por incertos sem possibilidade de defesa. Tentei colocar-me no seu lugar, compreendi, e calei o que me apetecia dizer face aos repetidos insultos ao CM.
Depois, com a insistência, comecei a interrogar-me.
Por que razão não teria o sr. sido tão despachado e corajoso em relação a outros jornais, que, semanas antes, tinham publicado notícias semelhantes? O sr. lembrar-se-á. Depois de ter anunciado ao País que o seu nome constava no processo e que iria travar o combate da sua vida, o sr. foi manchete no ‘Expresso’ por causa dos tais testemunhos. O ‘Público’ teve acesso à mesma informação. Nessa altura, o sr. não exigiu direito de resposta, não se queixou à agência de fretes conhecida como Alta Autoridade para a Comunicação Social (cujos membros o sr. e outros dirigentes políticos nomeiam) e muito menos insultou ou se lembrou de pedir a certificação dos testemunhos que agora pediu sem sentido ao juiz de instrução e que não obteve depois da entidade competente, o Ministério Público.
Qual era, no fundo, a diferença em relação à nossa notícia? Isto: que o sr. teria sido informado, durante a estada no DIAP, da existência desses testemunhos. No entanto, a sua reacção foi desmedida: como se estivéssemos perante uma novidade e o País não soubesse, por intermédio de jornais para si tão insuspeitos, dos tais testemunhos.
Repito: afinal, qual era a diferença?
Quase nenhuma, fora essa informação que a nossa "fonte" ainda hoje mantém e o comunicado que o sr. pediu ao procurador-geral, sobre o que ficou lavrado em acta dessa audição, não belisca.
O problema é, pois, de intervenção política.
O sr. tinha anunciado na véspera ao País que iria deixar para trás a obsessão do mediático processo – que o eleitorado tanto penalizava, a si e ao seu partido, em termos políticos, como se constatava nas sondagens.
Ou seja: fomos um óptimo motivo para a sua afirmação.
Ao sr. não faltaram meios de defesa. Ainda a sua carta não me tinha sido entregue em mão, e o sr., possuidor de uma agenda telefónica necessariamente rica e repleta de amigos ilustres, já insultava o jornal para além do carácter factual da notícia. Nas rádios, nas televisões, na Net e em jornais, a toda a hora, o sr. fez passar a sua versão, sem qualquer contraponto e, algumas vezes, com considerandos insultuosos.
A Lei de Imprensa para si é um pretexto. A mim, e ao meu jornal, é que teria dado muito jeito uma lei que nos tivesse permitido repor a verdade em todos os meios de informação que o sr., com mais ou menos visão, rapidamente convocou. Os nossos leitores sabem o que aconteceu, mas quem o viu, desgrenhado e agressivo, pode ter imaginado o que nunca dissemos ou difamações que nunca existiram. E fomos agora condenados à repetição da sua carta, entre outras coisas, porque não podíamos dispensar um Editorial de explicação aos nossos leitores. O sr. e a AACS abusaram do espírito da lei.
O sr. foi intelectualmente desonesto em relação ao CM. Insultou. Falou de "patifarias", apodou-nos de "pasquim", entre outras coisas.
Garanto-lhe uma coisa, dr. Ferro Rodrigues: aqui, no CM, há-de encontrar respeito pessoal de todos os jornalistas. Nunca lhe faltará o espaço para as suas iniciativas enquanto líder da Oposição e candidato à chefia do Governo do nosso País. Queira, ou não, o sr. irá continuar a ser tratado com todas as garantias devidas a qualquer cidadão, mesmo a um que não tenha, como o sr. inequivocamente tem, um passado ilustre de lutador pela Democracia. Nunca o devemos esquecer, mesmo que a Democracia, por vezes, nos apresente facturas incómodas.
Pela nossa parte, não abdicaremos de levar aos nossos leitores toda a informação, nomeadamente aquela que diz respeito ao PS. Um partido tão importante da nossa história recente estará sempre acima de polémicas e de erros deste ou daquele dirigente.
Resta-me uma posição pessoal. Entendo tudo, dr. Ferro Rodrigues. A sua indignação. As suas necessidades políticas.
Não admito, no entanto, a desonestidade intelectual que nos transformou no motivo fácil e apetecido da sua mais recente aposta de afirmação pessoal, partidária e política.
Como Director do mais vendido jornal diário de Portugal, instituição que nunca se amedrontará ao primeiro abrir de olhos de qualquer cidadão notável e poderoso, resta-me tirar as devidas conclusões.
Na vida, todos aprendemos. Sobretudo a reconhecer patifarias. Até por isso, há convites para almoçar que nunca mais poderão ser aceites.
Passar bem, dr. Ferro Rodrigues
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