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Correio da Manhã

Opinião
14 de Agosto de 2005 às 17:00
Caros adeptos do futebol
Agora que a época oficial do futebol arrancou não queria deixar passar a oportunidade de lhes dirigir algumas palavras.
Vós sois a génese que alimenta a modalidade desportiva mais bonita do Mundo. Vós sabeis como o futebol tem vindo a mudar, de acordo também com as mudanças verificadas no tecido social e económico das sociedades modernas. Vós sois os únicos que alimentam e exteriorizam a paixão pelos vossos clubes e ícones. Vós sabeis que a vossa paixão é cada vez menos correspondida por aqueles que transformaram o jogo numa indústria sórdida, onde abunda a corrupção, o estratagema súcio, a mentira e o tráfico de influências. Vós tendes a vontade indómita de festejar a vitória. Vós tendes, também, uma propensão maravilhosa nem sempre sinónimo de discernimento e lucidez para acreditar em tudo, ou quase tudo, o que os líderes dos clubes dizem ou proclamam.
Aquilo que lhes posso segredar, no arranque de uma nova época futebolística, é que estes tempos aconselham a uma maior prudência. Não acrediteis em tudo o que lhes querem impingir. Não duvido que, dentro dos clubes, haja pessoas com verdadeiro afã clubístico. Escasseiam, é certo, mas existem. O futebol deu dinheiro a ganhar a muita gente mas o pecado da gula matou a galinha dos ovos de ouro. Na ânsia do lucro fácil e na densidade complexa das finanças dos clubes perdeu-se não apenas o verdadeiro significado de ‘ser do...’ mas, igualmente, o espírito da relação entre dirigentes e adeptos.
Vós sois tratados, muitas vezes, como meros instrumentos de poder. Vós, na cabeça de muitos dirigentes, sois seres manipuláveis, capazes de perder a clarividência sobretudo nos momentos em que a vossa imaculada paixão arde na tumba da euforia. Vós, no cérebro deles, se não sabeis, já não contam para nada. Contam para fazer barulho, contam para os proteger, contam para ir às assembleias gerais votar a favor do que muitas vezes não sabem, contam para acicatar os adversários, contam para fazer ruído perante os árbitros e contam para depositar os euros que não deveriam sobejar num buraco que já não tem fundo. Vós sois o sorriso maquiavélico que observamos no rosto daqueles que se sentem saciados quando vos enganam. Vós sois, para eles, a ignorância que lhes enche a barriga. Vós sois o alimento que lhes provoca a sede da mentira.
Há muito que oiço dizer que as pessoas passam e as instituições ficam. Mas nesta voragem impiedosa dos que comem tudo e não deixam nada já se pode achar que as instituições não ficam. O Académico de Viseu, com 92 anos de existência, está à beira de fechar as portas. O Alverca, num passado recente placa giratória de jogadores, que chegou a rivalizar em protagonismo com outros emblemas, não vai poder manter a competição profissional. Neste ritmo, e sob o registo do desprezo a que vós sois votados, um dia a ameaça séria de extinção alcançará os gigantes com pés de barro.
Veja-se o que se está a passar com a venda do nome dos estádios. É um tiro fulminante na identidade clubística, só possível porque já não têm mais nada para vender. Achais porventura normal que continuem a comprar jogadores para 15 dias depois os dispensar? Quem ganha com isso? E quem perde? Achais aceitável que se alimente, em nome de um negócio encapotado, a indigência intelectual de se publicar todos os dias a graça de mais um reforço para o vosso clube? Querem explicar-me por que razão sois impelidos a alimentar esta pouca-vergonha? Não é tempo de parar? Não é tempo de pedir responsabilidades? Por acaso tendes noção da força que constituem? Já imaginaram o que seria um estádio sem vós, adeptos às vezes incondicionais de uma só cor?
Alguma vez imaginaram a cara com que alguns policromáticos dirigentes da nossa praça ficariam, do alto da sua pobre arrogância, se vós, donos e senhores da vossa vontade, lhes voltassem as costas? Será que eles não percebem que, ao votarem-vos ao degredo do pensamento e julgarem-vos perante supostos delitos de opinião, ficariam a falar sozinhos e, então, arrependidos de serem às vezes tão estúpidos? Vale a pena destruírem o bem-estar das vossas famílias e reduzirem o quinhão dos vossos proventos para alimentar a megalomania, a estultícia, a prepotência e a soberba daqueles que ousam pensar em conduzi-los como ratos a caminho do rio?
Reflictam nestes casos bem actuais:
1) QUEM NÃO SE KALOU... – Agora é o ponta-de-lança que chega, não chega, já vem, afinal não é preciso. Pergunto: vós sentireis alguma coisa de especial com este rodízio de notícias? Percebeis certamente a razão pela qual elas saem a uma velocidade superior à do TGV. Não achais que há algo de anormal nesta relação com certa Comunicação Social? Não achais estranho que os responsáveis do Benfica não tenham sobre isto uma posição clara? Não achais que quem cala consente? Não achais que as notícias podem ser fomentadas de dentro para fora exactamente para criar o efeito de uma droga e desviar a atenção dos verdadeiros problemas? Não achais estranho que Vieira peça agora explicações a Veiga quando Veiga, depois de o Benfica ter ganho o campeonato, ter sido coroado ‘rei’? Não achais no mínimo ilógico estas súbitas mudanças de humor entre presidente e director-geral, também com súbitas transferências de responsabilidades? Não achais que, depois do que aconteceu com Tomasson, era aconselhável calarem a boca com Kalou? Não achais é preciso contratar bem, na hora certa e com discrição?
2) CASO NUNO VALENTE – O adepticismo portista é capaz de consentir que um jogador como Nuno Valente seja colocado entre a espada e a parede? Vós, adeptos portistas, não achais que, face às regras hoje instituídas, um jogador possa representar bem o seu clube e ter a faculdade de jogar na Selecção, sobretudo a poucos meses da realização do Mundial na Alemanha? É assim que Pinto da Costa pensa defender o seu clube? E o papel de Adriaanse ainda é mais lamentável, porque é treinador e sabe que um dia pode estar no papel de um seleccionador.
3) CASO DOUALA – O Sporting está a poucas horas de começar a sua saga europeia. Objectivo: entrar na fase de grupos da ‘Champions’. Vós, adeptos sportinguistas, mesmo no auge da vossa paixão, acham aceitável, em nome da estabilidade do atleta e da equipa, que Douala esteja a ser negociado até quase à hora do jogo com a Udinese?
Caros adeptos do futebol
Os dirigentes não se podem achar donos dos clubes. É preciso mudar a cultura do adepticismo. Mas, para isso, se me permiteis, é estritamente necessário diminuir a clubite. Estar vigilante. Ver para concluir. Não ir na cantiga do presidente só porque ele é presidente. Tal e qual como na política. Eu acredito no povo. Mas acho também que o nosso povo é demasiado generoso. Os fiéis da bola envolvem-se num rito e, sem saberem, estão a profanar o templo. O conceito de seita não valoriza o futebol. E aqueles que querem ter o poder de excluir, segregar, profanar ou discriminar têm de perceber que nós, cidadãos deste mundo, percebemos. E que podemos, ‘tout court’, gostar de futebol.
Nota – Os fogos em Portugal traduzem a inacção e a ineficácia dos governos sobre todas as matérias potencialmente inflamáveis.
Nota 1 – Como é possível acreditar na classe política quando as instituições permitem que casos como o de Fátima Felgueiras sejam tratados ao nível de uma telenovela luso-brasileira?
Nota 2 – Se passar as férias numa cabana, sem ar condicionado, em vez de ir para o Quénia ou para um resort de luxo, resolvesse os problemas da economia portuguesa e da qualidade de vida dos contribuintes, a oposição teria razão. Mas deixem-se de hipocrisias: só não vai quem não pode!
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