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Correio da Manhã

Opinião
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12 de Dezembro de 2004 às 17:00
Jorge Sampaio, na sua comunicação ao País, para além de ter marcado as legislativas para 20 Fevereiro (Portugal tem sido um verdadeiro carnaval de indigências), colocou a tónica nas quebras de garantias dadas em Julho pelo Governo da coligação em matéria de estabilidade e credibilidade para fundamentar a sua decisão de criar os mecanismos constitucionais necessários conducentes à dissolução da Assembleia da República. Houve algumas questões pelo meio, como aquele do ‘esquecimento’ da comunicação ao presidente da Assembleia da República, um ‘esquecimento’, enfim, na linha do nosso regime e hábitos parlamentares, porque, na verdade, nunca ninguém se calou quando Mota Amaral, do alto das suas competências, mandava calar os deputados, quer dizer, esse ‘esquecimento’ foi valorizado por muitos daqueles que, na prática, consideraram sempre aquela ‘alta figura da nação’ como um contador de votos ou, recorrendo ao futebol, como um ‘árbitro’ a quem os ‘jogadores’ passam o tempo a fazer a vida difícil, cuja caracterização só foi contrariada pelos salamaleques do primeiro-ministro, os mesmos salamaleques com que Santana Lopes (SL), a certa altura, presenteou Jorge Sampaio.
Se o PR pôde ter dúvidas legítimas sobre a viabilização de um governo que deixou de ser o mesmo sem Durão Barroso (sempre achei que um Governo liderado por SL, ainda por cima sustentado por uma cadeia ‘salta-pocinhas’ de ministros, nunca poderia ter grande futuro, em razão de se alimentar da sua própria instabilidade), começou a deixar de as ter provavelmente muito antes de se encerrar este ciclo de quatro meses. Jorge Sampaio, na sua comunicação ao País, falou de “sucessivos incidentes e declarações, contradições e descoordenações, que constribuiram para o desprestígio do Governo”; falou, afinal, de tudo aquilo que, estupefacto, o País observava e que era, afinal, previsível.
O executivo, com altos militantes do PSD de cabelos em pé, assemelhou-se a uma espécie de ‘Toys ‘r us’ (passe a publicidade), com meninos birrentos a disputar brinquedos numa casa completamente desarrumada. Mesmo agora, neste jogo do desfaz/não desfaz a coligação, em que o Governo parece querer continuar a governar à força, para além daquilo que é normal num quadro de dissolução (veja-se o caso das altas chefias do SIS); para além de ser claro que alguns ministros já estão, em colectivo ou unipessoalmente, em campanha eleitoral, continua a correria desenfreada – e a falta de respeito usada em relação ao chefe de Estado é qualquer coisa que não se pode relativizar, sobretudo em democracia.
Chamar caudilho a Sampaio ultrapassou todas as marcas, apesar das justificações dadas a posteriori pelo ministro Morais Sarmento, que teve de ir ao dicionário e obrigar a consultas e a reflexões etimológicas e semânticas para tentar atenuar o tom da gravidade. Utilizando a linguagem do futebol, Jorge Sampaio deu o benefício da dúvida a um treinador que não soube gerir nem conter a indisciplina do plantel, ao invés, foi o maior fautor dessa indisciplina, e enquanto olhou para ela com máxima tolerância foi tratado com deferência e consideração; quando entendeu que já não havia mais condições para evitar a ‘chicotada psicológica’, agiu em defesa de uma nova solução a sufragar pelos portugueses.
O PR agiu sempre em consciência, tentando fazer funcionar o princípio da equidistância e da imparcialidade. Arrostou no Verão com as críticas dos socialistas; teve de ouvir, agora, mais do que o ranger dos dentes de alguns sociais-democratas, pelo menos aqueles que, por este ou aquele motivo, se posiciona(va)m na área da governação. Podem-se discutir os ‘timings’ e pormenores processuais; mas não se pode discutir a honorabilidade e a seriedade de um homem, até no plano político, que ficará na história como uma das maiores referências da democracia portuguesa. Jorge Sampaio já pode concluir o seu mandato com a sensação de que, no essencial, cumpriu a missão, às vezes num clima de autêntica histeria e loucura.
O actual PR não apenas cabe no onze de notáveis da nossa Democracia como a sua titularidade foi e continua a ser determinante. O resultado da sua acção, por influência directa e indirecta, também não deve ser desvalorizado: para além de ter travado uma ofensiva perigosa de múltiplas irresponsabilidades, com tiques de extrema-direita, o PR contribuiu para definições e clarificações no PS, que vive ainda sob um anátema, no ciclo pós-Ferro Rodrigues: convencer os portugueses de que Sócrates não é um clone imperfeito de Santana, isto é, não é mais do mesmo ou, se se quiser, não é mais do mesmo do outro mesmo, quer dizer, não é Guterres no campo Santana.
“O País não pode perder mais tempo” – disse Sampaio. Não pode. Nem com Santana e Portas a fazer de árvore de Natal (sempre a piscar... a piscar...) nem com fórmulas esgotadas.
AS ALTERNADEIRAS DO APITO
O ‘Apito Dourado’ conheceu nova fase e não deixa de ser interessante verificar, entre outras coisas, que as alternadeiras foram a alternativa ao princípio da alternância no futebol português. Pelo menos num determinado contexto. E, sem querer fazer juízos antecipados, parece não existir dúvidas de que há muita pobreza de espírito, para além do mais, na situação conjuntural do futebol indígena. A proibição de Pinto da Costa em contactar dirigentes de referência da bola lusa e, genericamente, as ‘estruturas da arbitragem’ leva-nos à conclusão de que, segundo a juíza Ana Cláudia Nogueira, esses contactos poderiam levar, supostamente, a muita coisa. Com efeito, é possível a assunção da presidência de um clube ou de uma SAD sem necessidade de haver ‘contactos’ com membros de órgãos jurisdicionais da Liga e da FPF. O que me parece estar em causa é um regime que se tornou anormalmente normal.
Há muito que ando a dizer que o futebol não consegue sair do seu ‘ano zero’. Porque da correcção de comportamentos entre alguns representantes da classe política e dirigentes desportivos, da adequação da legislação às necessidades do presente e do futuro, vai depender, ou não, a refundação de um futebol mais participativo, mais aberto, mais democrático, mais real. Vão colocar-se muitos obstáculos e, como diz o presidente da República, não há tempo a perder. Também para salvar o futebol. Da clubite exacerbada, da impreparação, da ignorância, da má educação, do populismo, do ‘êxito’ a qualquer preço.
NOTA– A demissão do Governo é só mais um pormenor.
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