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Correio da Manhã

Opinião
16 de Abril de 2006 às 17:00
O caminho já fora atapetado pela Comunicação Social, dando expressão com toda a naturalidade às informações que iam sendo plantadas na periferia de Filipe Soares Franco (FSF) pelos seus inúmeros candidatos a assessores. Por isso, a notícia surgiu sem estrondo: FSF reconsiderou, levando em conta o movimento que se gerou em seu redor, e decidiu avançar para eleições. Curiosa a explicação: “Não faltei à minha palavra, apenas mudei de opinião”. Já Francisco de Quevedo, escritor e poeta espanhol do século XVII, dizia que “o homem que perde a honra por causa de um negócio, perde o negócio e a honra”. O negócio é dos bancos, não é do Sporting, está visto, porque segundo o agora candidato, os ordenados do mês de Março não estavam pagos e vão ser rapidamente regularizados. Dois e dois ainda são quatro: as entidades bancárias estavam à espera que o SEU candidato avançasse para aliviar o garrote de tesouraria.
Diz, também, FSF, no meio das suas alegações, que não podia consentir que uma minoria bloqueasse o futuro do Sporting. Foi essa minoria que se tornou maioritária ao reprovar, à luz dos estatutos do Sporting e não sob os ditames de uma qualquer ordem inquisitorial, o ‘projecto’ da alienação do património não desportivo. Essa AG não valeu para FSF nem para os ‘notáveis’ que transformaram uma derrota (à luz dos estatutos) numa vitória – e o argumento de que o ‘projecto’ QUASE passou cola com a perspectiva mui leonina de que uma derrota por 1-0 significa QUASE um empate (a zero ou a uma bola).
Quer dizer: convocou-se uma AG para ela funcionar como barómetro de popularidade de FSF junto dos sócios; a questão da (aprovação ou) reprovação do ‘projecto’, que era efectivamente o cerne do concílio, passou a ser despiciendo.
Só quem não quer é que não percebe: alguns notáveis cavalheiros meteram o leão neste estado comático; o rei da selva está nos cuidados intensivos, ainda por cima a inalar a fumarada dos charutos, e de lá não vai sair nem com a venda (reprovada) do património não desportivo. Quando, numa outra AG, realizada em nova conjuntura, for dada autorização de venda daquele património, o produto desse dinheiro será canalizado para amortizar a dívida aos bancos. Daí o aparecimento de muitos banqueiros e bancários a incitar a vaga franquista. Filipe ficou sem margem para dizer ‘não’. O Sporting é dos bancos. Soares Franco é do banco. Aceita-se isso como facto inevitável? Então, por que razão os clubes acumularam gigantescos passivos, sobretudo depois de se achar que a constituição de diversas sociedades, incluindo as anónimas desportivas, iriam contribuir para um maior equilíbrio financeiro? Não há responsáveis pelo caos a que se chegou? No caso do Sporting, alguns daqueles que se preconizam como ‘salvadores da pátria’ ou que se apresentam como subscritores de soluções finalmente ‘libertadoras’ não sentem um mínimo de culpa?
Soares Franco conseguiu ‘assinantes’ de todos os quadrantes da sociedade. Ainda bem que os 100 nomes ficam escritos para a história. Cem nomes sem. Porque eles comprometem-se com aquilo que se passará no futuro. E o futuro, mesmo considerando as promessas de circunstância e os processos de intenção que passam pela permanente entrada directa na Liga dos Campeões e não vender nenhum dos activos mais preciosos da SAD leonina, apenas envolve espúrias garantias. Antes, FSF punha a questão em alienar património não desportivo para evitar a venda de jogadores. Agora, pelas suas mais recentes declarações, se surgir um bom negócio, a situação pode mudar... De facto, como proclama Racine, “sem dinheiro a honra não passa de uma doença”. Aqui estaremos para ver, na doença, até quando vai ser possível segurar Nani, João Moutinho e o próprio Liedson... Quatro ou oito meses? Mais de um ano?!...
Nota – O futebol foi de férias no Natal. A Assembleia da República na Páscoa. E nós à espera da ressurreição...
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