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Correio da Manhã

Opinião
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19 de Junho de 2003 às 00:00
Na última segunda-feira, sentado sonolentamente na sala de espera do Ministério das Obras Públicas, fui desperto pelo toque estridente do telemóvel. De forma automática, levantei-me e fui atender a chamada ao corredor. Quando regressei ao conforto do sofá, tomei consciência do referido automatismo e interroguei-me sobre a sua racionalidade.
Não foi difícil compreender a sua razão de ser. Veio-me imediatamente à memória as inúmeras vezes que já ali havia estado e as inúmeras situações em que, na confortável quietude daquele espaço, havia preparado mentalmente os argumentos que, minutos depois, evocaria perante o responsável daquela pasta governativa. Esse exercício repetitivo ensinara-me, de um modo seguramente subliminar, que os telemóveis não têm rede no interior da sala, mas tão somente no pátio contíguo.
Sendo Presidente de Câmara há cinco anos, era a 5.ª vez que realizava aquele exercício e era o 5.º Ministro com quem ia esgrimir, em relação a muitos assuntos, os mesmos argumentos!
Naquela cave, diga-se de passagem acolhedora, já havia esperado para ser recebido pelos ministros João Cravinho, Jorge Coelho, Ferro Rodrigues, Valente de Oliveira e, agora, Carmona Rodrigues!!!
Pela 5.ª vez ia, igualmente, escutar conceptualizações e princípios específicos de quem, legitimamente, está a tomar conta da casa e deseja incutir regras próprias ao exercício de um novo magistério.
Cavaco Silva introduziu o conceito da importância da estabilidade política para tornar a democracia parlamentar minimamente eficaz. Os portugueses perceberam-no e, a partir daí, apostaram em sucessivas e largas maiorias fossem social democratas, socialistas e, agora, social democrata e centrista. A esta sucessão, positiva e saudável no contexto da afirmação do princípio da alternância democrática, não tem correspondido igual coerência através das sucessivas maiorias de governo.
O povo, sensatamente, aposta na estabilidade.
Em contrapartida, o sistema político não a assegura com igual sentido de responsabilidade.
Durante o consulado socialista tal foi por demais evidente. Quatro ministros da Administração Interna, quatro ministros da Defesa e três ministros da Educação, em cinco anos e meio, é excessivo e incompatível com a consolidação de uma governação planeada e consistente.
O actual executivo deve fazer, também neste capítulo, a diferença. É necessário que o faça, sem que, obviamente, tal impeça remodelações pontuais e inevitáveis.
Todavia, para que tal desiderato seja perenizável é indispensável assegurar as condições que permitam trazer para a vida pública os melhores. Isso pressupõe reformas do sistema político que deviam, de imediato, avançar.
Políticos justamente remunerados, partidos mais abertos e mais democráticos, deputados reconhecidos pelos cidadãos eleitores, são, entre outras medidas, pressupostos necessários à estabilidade de futuros governos.
No caso concreto do Ministro Carmona Rodrigues, valeu a pena a minha passagem pelo Ministério. Encontrei um político preparado tecnicamente, dinâmico e sério, com todas as condições para triunfar. Assim lhe dêem tempo para trabalhar e mostrar resultados.
Desejo que tal aconteça, até porque o seu êxito ajudaria, e de que maneira, a desembrulhar o imbróglio presidencial. O país teria a possibilidade de optar por mais uma candidatura ao cargo de Jorge Sampaio e a maioria teria um fortíssimo candidato à Câmara de Lisboa.
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