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Correio da Manhã

Opinião
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24 de Fevereiro de 2003 às 02:57
Nas conversas mais ou menos privadas, quase toda a gente acaba por reconhecer que é o próprio Durão Barroso a grande revelação deste Governo. Mas a maioria dos editorialistas, dos analistas, dos colunistas, dos comentadores e dos croniqueiros tem uma certa dificuldade em assumir essa evidência.

Também não admira. Durante meses, os longos e penosos meses em que se arrastava na oposição ao engenheiro Guterres, o homem foi dado como morto em dezenas de editoriais e centenas de crónicas, colunas e comentários.
Mesmo a sua elevação à chefia do Governo não foi triunfal. Na realidade, nem sequer é exacto afirmar que foi ele quem conquistou o poder. Limitou-se a esperar e a sobreviver. O engenheiro Guterres atirou o poder pela janela e lá estava o doutor Barroso à espera, de braços abertos para o apanhar.

E depois de vencer à tangente umas eleições talhadas para a maioria absoluta, as opiniões também seguiram praticamente todas no mesmo sentido: o Governo até não era nada mau, o problema residia exactamente naquele primeiro-ministro.

Sucede que, após quase um ano decorrido, não restam dúvidas de que Durão Barroso veste melhor a pele de primeiro-ministro do que vestia a de líder da oposição. E que, após os meses iniciais de hesitações, omissões e silêncios comprometedores, o seu desempenho está uns furos acima da média do Governo.

A imprensa internacional tem destacado aquela que é porventura a sua principal qualidade – a persistência. Persistência na condução de reformas. Persistência na defesa de medidas impopulares. Persistência que, comparava o americano Wall Street Journal no início deste ano, falta a Schroeder na Alemanha, a Berlusconi na Itália e persistência que começa a faltar a Aznar no seu segundo mandato em Espanha.

Sendo uma qualidade rara nas lideranças políticas da actualidade, a persistência não é tudo aquilo que o País necessita. Ameaça, aliás, tornar-se uma fórmula gasta. Porque houve persistência para colocar o défice orçamental abaixo de 3% o ano passado, mas começa a faltar tudo o resto.

Na administração pública, perdeu o fio à meada e tudo continua na mesma. Nas empresas estatais, mexeu na RTP mas deixou intacto o maior dos problemas: os cancros financeiros nos transportes públicos. Sectores como a Educação e Obras Públicas, onde até surgiram sinais promissores, está instalada a confusão. Nas Finanças faltam ideias e começa a sobrar arrogância. Na Justiça, a ministra desapareceu. Noutras pastas, Administração Interna, Ciência ou Cultura, os ministros pura e simplesmente nunca existiram.

Se este Governo fosse um plano a prestações, dá a sensação que a primeira foi paga a tempo e horas, mas as outras estão atrasadas. A iniciativa foi perdida. Em vez de tomar decisões, os ministros do doutor Barroso andam a reboque dos problemas. Perderam a dinâmica da mudança, agora só reagem com medidas avulsas.

A Economia está sufocada, o desemprego sobe em flecha e o Governo parece que ficou atordoado com isso. Em 2002, muita coisa importante foi lançada: sobretudo na Saúde e na legislação laboral. Em 2003, o Governo ainda não trouxe nada de novo e, pior que isso, está a falhar o ‘follow-up’ das medidas que já estavam em curso.

É por isso que volta a sussurrar-se, entre as hostes laranjas, o mesmo assunto que dominou o auge da crise do doutor Portas no caso Moderna – a remodelação governamental.

Até este fim-de-semana podia ser uma especulação sem fundamento. Depois de Valente de Oliveira, do parecer da PGR, do Metro do Terreiro do Paço, da ilibação de Ferro Rodrigues, do telefonema de desculpas que este recebeu do primeiro-ministro, da questão que ele fez em distanciar-se do episódio, enfim, depois deste assumido mal-estar entre o gabinete de São Bento e o ministro das Obras Públicas, remodelar deixou de ser uma palavra proibida.

Não é só pelo facto de Valente de Oliveira ter ficado numa posição insustentável. Nem sequer por ser este ministro o único problema. É sobretudo por ter sido ele a dar o pretexto para mexer na equipa. Cujo desgaste começa a ser evidente. Remodelar pode ser a solução. Normalmente é o início de maiores dificuldades.
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