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Correio da Manhã

Opinião
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9 de Junho de 2012 às 01:00

O desfoque é tal que chega a meter dó, mesmo com a atenuante de se saber que as paixões que o futebol desperta não assentam em qualquer racionalidade. A situação é um misto de patriotismo serôdio e complexo nacional de inferioridade, associados a lógicas de subdesenvolvimento social e cultural que se alimentam de espectáculos circenses para sublimar insuficiências e frustrações.

A Espanha está a afundar-se e a enterrar ainda mais a moeda única; em Portugal, o Governo assinala o seu primeiro aniversário no meio da maior crise que se conhece; na Síria, os massacres continuam sem uma resposta internacional. No entanto, é o Euro, o da Polónia e da Ucrânia, que disputa os lugares de honra nas primeiras páginas, como se o nosso futuro dependesse de uma vitória na prova. Neste tempo de alienação que se instala à conta da bola e do Verão que já bate à porta, Christine Lagarde, directora--geral do FMI, acaba de fazer uma sugestão que talvez não se revele tão estapafúrdia quanto à primeira vista poderia parecer: os líderes europeus deveriam ser fechados numa sala e obrigados a nela permanecer até terem um plano para salvar o euro. Não sei se com uma reunião desse género se chegaria a algum lado, mas provavelmente veríamos mais avanços do que aqueles que, nestes anos de agonia da moeda europeia e de destruição de valor nas economias nacionais, um infinito número de cimeiras produziu. Pelo menos, talvez alguns dos dirigentes europeus que, por incompetência ou egoísmo, têm fortes responsabilidades na situação, fossem sendo eliminados e alguns consensos se gerassem, mesmo que o resultado se ficasse a dever à exaustão.

Actuação idêntica, aliás, poderia ser recomendada para Portugal. A política portuguesa é um panelão onde todos se combatem e todos se abraçam, onde a direita e a esquerda se digladiam publicamente, mas apertam a mão nos interesses e nos negócios, e onde os conluios entre o Estado, a banca e a iniciativa privada têm prosperado, como o caso das PPP (para me ficar por aqui) evidencia.

Fechar os líderes nacionais numa sala, de preferência à vista de todos, talvez permitisse que a verdade fosse menos maltratada e os corredores do Poder sofressem desinfestação salutar. Ganharia folga o bolso dos contribuintes e reforçar-se-ia a transparência democrática, ao mesmo tempo que se eliminaria muito videirinho que, à conta da política, acumula poder, influência e dinheiro. Pena que tudo isto não passe de uma irrealizável proposta gerada pelo alienante clima do Euro e contagiada pela falta de paciência da francesa que comanda o FMI.

 

NOTAS*

Nuno Crato (13)

Da maneira como o sector educativo está, o reforço da disciplina nas escolas é passo importante. A coragem de responsabilizar as famílias também.

António J. Seguro (10)

O discurso crítico tem-se acentuado de tal forma que até se poderia concluir que o PS nunca foi Governo. A euforia fá-lo desproteger os vidros do próprio telhado.

Vítor Gaspar (9)

Apesar de o acordo com a troika o proibir, vai criar uma nova empresa pública. O argumento de que se trata da mera transformação de um instituto não colhe.

Vítor Constâncio (8)

Por muito que explique, o ex-governador do banco central não consegue anular a ideia de que falhou como regulador no BPN. O País também não esquece.

SOLTAS

Militantes mas autónomos

Rui Rio resolveu acentuar a necessidade de o Governo conseguir mais tempo para aplicar as obrigações previstas no acordo da troika. Ferreira Leite havia recomendado o mesmo, preocupada com o estrangulamento da economia. Até no PSD a pressão sobre Passos Coelho cresce.

Queimaduras de alto grau

A jornalista Maria José Oliveira demitiu-se do ‘Público’, desagradada com a Direcção do jornal no caso das alegadas pressões de Miguel Relvas. Acaba por ser o único interveniente no processo a sair razoavelmente dele. O ministro queimou-se e a equipa directiva também se deixou chamuscar.

Pontapé para cima

As idiossincrasias do presidente do Braga deitaram Leonardo Jardim pela borda fora, apesar da boa performance da época passada. O treinador não demorou a arranjar emprego. O Olimpiakos, clube de prestígio internacional, contratou-o. Mesmo falida, a Grécia sabe reconhecer o mérito…

 

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