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Correio da Manhã

Opinião
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13 de Maio de 2009 às 09:00

Umas das coisas que mais me causam impressão na nossa democracia é o facto de, 35 anos depois da revolução, os partidos à esquerda do PS nunca terem feito parte dos governos, exceptuando naqueles tempos loucos iniciais de 75. Apesar de a democracia estar estabilizada, há uma estranha impressão de que mais de metade do país ainda acha que os comunistas comem criancinhas ao pequeno-almoço e que os bloquistas de esquerda nos vão roubar as pratas da família. É curioso como tanta gente, desde a direita a boa parte dos socialistas, tem pesadelos à noite só de pensar na hipótese de ver Francisco Louçã ou Jerónimo de Sousa como ministros de um governo de Portugal. Há um medo puro, limpo e básico, mas totalmente irracional, dessa situação. As pessoas agitam-se nas cadeiras, inflamam-se, como se fossem tias velhas zangadas com a criadagem. E claro, o medinho é tanto que desata logo tudo a falar no famoso Bloco Central, cujo único propósito é exactamente o de evitar esse tenebroso cenário de ver PCP ou BE nas cadeiras do poder.

Infelizmente, isto trata-se de uma infantilidade tonta, um trauma de infância das gerações que viveram o antes e a revolução como se fosse o ponto mais alto da vida delas e ainda transportam para o presente esses receios nocturnos de menino e menina. Malta, isso foi há 35 anos, percebem? O tempo dos ‘comunas’, dos barbudos e do MFA já passou há tanto tempo que já nem eles se lembram de como eram naqueles tempos. Agora, têm todos carro, cartão de crédito, DVD, telemóvel e vestem roupa nas mesmas lojas que todos nós. Hoje, ao contrário de há 35 anos, já não se consegue distinguir um comunista de um democrata-cristão antes de eles falarem. Claro que, quando uns ou outros abrem a boca, ainda se ouvem uns ecos vagos das célebres ‘cassetes’ do passado, mas a voz é roufenha e já ninguém liga muito ao que dizem.

Sendo assim, não vejo nenhuma razão para existir um Bloco Central. Se o PS não tiver maioria absoluta, o PS que se entenda com os partidos à sua esquerda, PCP e BE. Vão ver que a perspectiva de ser poder os modera logo. No Brasil, também se dizia que Lula era um perigo e o que aconteceu foi que ele se tornou num senhor moderado e de confiança. O poder modera as paixões políticas, e se o BE ou o PCP chegarem ao poder terão de moderar-se também. Foi aliás isso que aconteceu em Lisboa, com o senhor Sá Fernandes. O poder é assim, sempre foi e sempre será.

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