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Correio da Manhã

Opinião
14 de Outubro de 2012 às 01:00

Os proponentes defendem que os comentadores dizem a verdade e têm coragem. Não é pouco. Por entre a cacofonia de notícias, por vezes incompetentes quando não enviesadas, e o politiquês do governo e dos partidos da oposição, é difícil aos cidadãos encontrar os factos reais e mais ainda reuni-los numa realidade coerente, a verdade possível. Quanto à coragem, eis um elogio que sempre me espanta: relatar factos que outros escondem ou enviesam não deveria resultar de coragem, mas do dever de informar, comentar com base neles e dos deveres ético e de prestação de um serviço aos cidadãos.

Os canais de TV, generalistas ou informativos, estão vergados aos partidos na área do comentário. Desperdiçam horas com comentadores dos cinco grupos parlamentares, os quais raramente escapam ao sectarismo partidário. Enchendo ecrãs de cabeças--cassetes partidárias, os canais satisfazem os partidos, que assim não os aborrecem na hora de relatórios sobre o pluralismo e de renovação das licenças, mas não prestam nesta matéria um bom serviço público, porque os cidadãos certamente não pensam que o pluralismo se esgota na submissão dos canais ao comentário faccioso dos militantes partidários. Daí o interesse por aqueles três comentadores, que se distinguem por serem independentes dos partidos.

A proposta absurda de os pôr no Governo, entretanto, mostra a atracção pelas caras da TV, que não têm responsabilidade nas decisões que nos afectam. Fazem papel de "bons" contra os "maus" da política. Os próprios partidos as assediam, para que o seu carisma televisivo se transfira para um apoio dos cidadãos aos partidos. Um jornalista, apresentador de um programa diário há cerca de 15 anos, foi convidado por três partidos para integrar listas de deputados.

Esta atracção também resulta, porém, de jornalistas e comentadores controlarem mais o discurso político do que os próprios políticos, cujas declarações são cortadas em sound-bites, comentadas, glosadas e gozadas, descontextualizadas e enviesadas; e resulta de as caras conhecidas aparecerem muito mais tempo em antena do que os políticos. Compare-se o tempo que estão em média nos ecrãs os políticos e os apresentadores de telejornais, diversos repórteres e comentadores, incluindo aqueles três. Os políticos estão muito menos, apesar dos programas que os canais oferecem de mão beijada aos militantes dos cinco partidos.

A VER VAMOS

TUA: PROPAGANDA MINISTERIAL AO SERVIÇO DO BETÃO

Há um ano, Assunção Cristas disse no Parlamento que a obra da EDP do Tua não podia parar, pois "já tinha um paredão quase todo construído". Era mentira. Reconheceu-o depois, mas entretanto ganhou tempo para não parar o crime ambiental da barragem. Agora, os media foram enganados pelo gabinete da ministra, que ocultou as enormes reservas da UNESCO à barragem que, a cumprir, a tornam um crime financeiro. Um escândalo do marketing enganador dos cidadãos. Os media foram enganados pela propaganda ministerial. A TVI pegou no relatório da UNESCO e noticiou o seu real conteúdo antes de os outros media acordarem. Qual Sócrates, a ministra do Ambiente (!) coloca-se ao lado dos interesses do betão contra o ambiente. 

JÁ AGORA

'A GUERRA': A FAZER HISTÓRIA EM TV

A RTP 1 apresenta os últimos episódios de ‘A Guerra’, de Joaquim Furtado. O primeiro reconstruiu com inúmeros testemunhos o assassínio do líder do PAIGC, Amílcar Cabral, em 1973. O enorme detalhe contraria a superficialidade habitual da TV. ‘A Guerra’ é o jornalismo de investigação no seu melhor. Além de reportagem-documentário, é uma fonte e um documento histórico.

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