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Correio da Manhã

Opinião
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9 de Fevereiro de 2008 às 00:00
O ‘Apito Dourado’ vai entrar na fase de julgamentos e, embora haja a convicção de que a montanha vai parir um rato, a avaliar por aquilo que se conclui de outros casos, é preciso compreender quem faz o seu trabalho e quem não faz. Em todas as áreas.
O envolvimento de figuras poderosas em casos de pedofilia e corrupção transforma-se numa complicação para a Justiça. Os mecanismos da máquina judicial, cujas incongruências vêm sendo denunciadas quer, numa primeira fase, por Maria José Morgado, quer, mais recentemente, pelo actual bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho Pinto, são muitos susceptíveis de poder emperrar.
A condenação dos poderosos, por mais fortes que sejam os indícios e a matriz das acusações, é um processo que normalmente não se conclui, porque há muita areia na engrenagem. Infelizmente, e a crítica nem sequer é para os juízes que são vítimas de um sistema do qual fazem parte – um sistema cheio de alçapões e contradições, o princípio da separação de poderes é apenas (perdoe-se-me o plebeísmo) ‘conversa da treta’.
Vêem-se cada vez mais políticos a criticar o sistema, mas, paralelamente, são eles que, atrás da cortina, tentam condicionar a celeridade relativa dos processos. Há uma ‘justiça para ricos’ e uma ‘justiça para pobres’, como há hoje grandes escritórios de advogados que só se levantam quando estão em causa grandes negócios dos quais podem tirar chorudos lucros.
Há vontade política de combater a corrupção? Até agora, não. Percebe-se. Há quem viva dela ou das suas aparentes extensões tentaculares. São mecanismos directos e indirectos. Veja-se a tentativa de João Cravinho. Mais ou menos inútil. Muita gente com grandes responsabilidades neste País prefere que o assunto fique ao nível da espuma. Há sempre quem fale nos ‘cancros da sociedade’, mas o que está mesmo a dar são os transplantes...
2. O CM, na sua edição de anteontem, dá eco a uma investigação de que Pinto da Costa está a ser alvo por suspeitas de receber ‘luvas’ resultantes de transferências de jogadores. É um assunto que, genericamente, me interessa porque, com mais de trinta anos a tentar compreender os meandros do futebol, tenho a convicção de que reside nesse ‘mundo’ a razão pela qual ganham significado algumas transferências que, do ponto de vista meramente desportivo, ninguém consegue entender. A investigação é anunciada como ‘demorada’. É normal.
Com o que se vem dizendo, torna-se mais difícil seguir – em qualquer operação deste género – o rasto do dinheiro. Não faço comentários sobre o caso em apreço. Retive, contudo, uma declaração que necessita de ser provada: ‘Além da comissão de determinada percentagem, o Jorge Mendes recebe determinada percentagem que é paga por fora, a qual divide depois com Pinto da Costa’.
Quer dizer: o mecanismo (caracterizado genericamente) passa pelo envolvimento de um ou mais dirigentes e de um ou mais empresários. Fala-se em transporte de dinheiro em malas diplomáticas e de verbas depositadas em bancos estrangeiros.
Este é um assunto que não pode nem deve ficar pela rama. Uma das razões da ‘falência técnica’ do futebol português tem a ver com a lógica das comi$$ões. Tenho a certeza de que o Estado e a ‘Casa do Futebol’ deveriam encontrar uma forma de controlar as transferências. Há supostamente muitos impostos em fuga e os contribuintes é que pagam a factura. Quem achar que este assunto resulta somente das comichões de Carolina Salgado está enganado. Aqui, não há só vinganças. Há uma realidade que importa atacar.
NOTA – O director da PJ, Alípio Dias, deu um tiro na instituição que dirige. Veio o ministro da Justiça, Alberto Costa, em seu socorro. Era caso para uma dupla demissão.
NOTA 1 – Na investigação e na Justiça, com este mau exemplo, colhe-se a sensação de que o amiguismo pode superar a falta de bom senso.
NOTA 2 – Portugal não evolui enquanto dominar o espírito de corporação entre as elites da classe política e as elites do tecido empresarial e do sistema financeiro.
NOTA 3 – O ‘caso Maddie’ é mais uma palhaçada. Igual à do ‘caso Casa Pia’ e a que promete ser o ‘Apito Dourado’.
NOTA 4 – A nova geração de magistrados resistirá à degradação cada vez mais ostensiva da classe política?
NOTA 5 – Os transplantes passaram a ser um negócio. Não é possível transplantar a falta de vergonha?
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