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Correio da Manhã

Opinião
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17 de Julho de 2003 às 00:52
No passado sábado, o jornal "Expresso" transcrevia declarações, por mim proferidas, em que admitia uma eventual candidatura à Câmara do Porto.
Apesar de se ter tratado de estratos de uma longa conversa, não pertenço ao género de aligeirar responsabilidades e de acusar os jornalistas por aquilo que afirmo, mesmo que, como foi o caso, a opção editorial tenha sido a de transcrever só uma parte do que declarei. Assumo por inteiro o que foi escrito, não percebendo a histeria de alguns dirigentes locais do PSD.
Comecemos então pelas declarações, para de seguida passar às reacções.
Quando confrontado com o meu futuro político, expressei uma hierarquia de opções sobre as quais decidiria em Setembro de 2004.
A probabilidade mais forte seria – é – a de abandonar o serviço público, dado o sufoco desinteressante em que o mesmo se está a transformar.
Uma segunda hipótese seria a de protagonizar uma terceira e última candidatura à presidência da Câmara de Gaia.
Finalmente, abria a porta, improvável, para um conjunto de outras alternativas, incluindo uma candidatura à Câmara do Porto. Neste último caso, como nos anteriores, não condicionava uma decisão às opções de quaisquer outros agentes políticos.
Filiei-me no PSD em 1975 e nele fiquei até hoje, por lhe reconhecer, entre outras qualidades, a de ser um espaço de grande liberdade de expressão e de afirmação de pluralismo e tolerância. O meu entendimento é o de que essa liberdade só deve ser condicionada quando, em representação partidária, se desobedece reiteradamente ao sentido de voto decidido pelo partido sobre matérias estruturantes do seu pensamento e da sua acção.
Se assim não fosse, Cavaco Silva, opositor radical dos governos de Pinto Balsemão, não teria chegado a primeiro-ministro; Santana Lopes e Durão Barroso, membros da então chamada ala da "Nova Esperança", frontal detractora de Mota Pinto e do governo do Bloco Central, não seriam hoje Presidente da Câmara de Lisboa e Chefe do Governo; Pacheco Pereira, um crítico sazonalmente activo, não seria Vice-Presidente do Parlamento Europeu. E isto seria assim porque, de acordo com as doutrinas em fase de instalação, teriam sido insultados por um qualquer "aparatchik" de serviço e sumariamente expulsos pelo plenário do "comité central".
As reacções, mal educadas e maniqueístas, ficaram, ainda bem, circunscritas a um certo aparelho, gordo de mordomias, despro-porcionalmente gigantes quando comparadas com o seu talento e currículo.
Essas reacções não se fazem sentir quando Santana Lopes, legitimamente, não afasta a possibilidade de ser candidato presidencial, apesar de estar a iniciar um mandato autárquico e de outros militantes sociais-democratas estarem na mesma corrida; não se fazem sentir quando o presidente da Câmara do Porto critica o primeiro-ministro por ir ao futebol ou por demorar mais de um ano para publicar legislação sobre reabilitação urbana; não se fazem sentir quando Miguel Cadilhe, com a sua autoridade técnica, questiona a política macroeconómica do Governo.
Esses críticos, prisioneiros da sua incapacidade e falta de legitimidade eleitoral, temem que a liberdade dos que pensam pela sua cabeça e não são dependentes faça escola, reduzindo-os ao estatuto de dispensáveis.
Ficam obviamente silenciosos quando, semanalmente, num canal de televisão, defendo as políticas governamentais em que acredito ou quando também as defendo nesta coluna de opinião. Chegam mesmo a desaparecer para parte incerta quando, como aconteceu durante a guerra do Iraque, a posição do Governo português era clara mas controversa. Nessa altura o PSD contou com poucos, mas contou comigo na primeira linha. Alguns dos que me criticam chegaram à cobardia de abandonar o Conselho Nacional do PSD para não votarem contra a moção apresentada por Durão Barroso.
O primeiro-ministro costuma afirmar que a solidariedade em política é uma auto-estrada com dois sentidos. Concordo. Só que comigo e com o meu partido, ultimamente, o trânsito vem todo de frente e com os faróis no máximo.
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