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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

Compras a pataco

Parece que este caminho de vício na actividade desportiva está longe de ser conhecido pelas autoridades que investigam [...] o futebol.

Francisco Moita Flores 18 de Novembro de 2007 às 09:00
Dois árbitros foram apanhados esta semana, em flagrante delito, a serem alegadamente comprados a preço do pataco. Qualquer coisa como quinhentos euros e os rapazes estariam dispostos a apitar a favor de um clube. Não estão caros, graças a Deus. Ao menos na arbitragem os preços não acompanham o aumento do custo de vida, embora se deva dizer que se dedicavam a campeonatos distritais, onde o jogo é quase a feijões.
Este episódio vale por ser a caricatura de um monstro maior que clandestinamente pressentimos no mundo do futebol e que tem o rosto mais badalado no processo ‘Apito Dourado’ que, diga-se, ainda não teve direito a julgamento mas já é filme exibido com grande sucesso nas salas do País.
Não sei se os dois árbitros estavam a ser corrompidos com quinhentos euros. Tal como não sei se Pinto da Costa ou Valentim Loureiro são os compradores de árbitros mais populares. Até duvido que sejam. A verdade é que não se passa jornada onde não fique sobre este ou aquele jogo a suspeição de que determinado lance só um ceguinho apitaria como o árbitro apitou. E a outra verdade é que o argumento de que o fiscal da partida é humano e, por isso, também erra, é chão cujas uvas já cheiram a azedo.
A distância que vai entre este caso de Lamego e o ‘Apito Dourado’ é um abismo escuro, tenebroso, onde não se sabe com exactidão quem compra quem mas sobre o qual é difícil de compreender outro resultado que não seja a convicção de que alguém foi comprado para se produzir determinado resultado. E, pelo menos, parece que este caminho de vício na actividade desportiva está bem longe de ser conhecido pelas autoridades que investigam a porcaria que suja o futebol, muitas vezes de braço dado com a política, outras vezes fazendo par com os branqueadores de capitais. É um jogo de negociatas complexo. Mais difícil de compreender do que o jogo de futebol dentro das quatro linhas. E se é bonito quando jogado com os pés, é demasiado feio quando jogado com as mãos. Sobretudo com as mãos sujas. Mesmo que sejam ao preço de quinhentos euros.
Na Boa-Hora está em julgamento um caso normal da história da nossa vida criminal. Uma mulher mandou matar o marido para lhe abarbatar a fortuna. Crime vulgar que não espanta ninguém pela excepcionalidade. Ganhou peso estatístico nos últimos duzentos anos e bem se pode dizer que não passa de uma rotina em muitos tribunais portugueses.
O que este caso tem de singular é que a eventual autora é personagem das revistas cor-de-rosa. Mulher dada à vida social, parelha de muitas outras, e com muitos outros casais, que são vendidos como imagem de referência. A crer nas notícias, no dia do funeral do marido correu apressada para um operação de cosmética e terá preferido um dietista a um advogado. A elegância acima do exercício dos direitos de cidadania. A moral da história é simples: quem se delicia com o mundo fantástico das revistas cor-de-rosa perceberá que vê muita lebre mas de facto é gato que lá está e o mundo das aparências vale o que vale. É uma aparência que desnudada pode ser um deplorável dejecto social.
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