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Correio da Manhã

Opinião
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10 de Janeiro de 2006 às 17:00
No sábado passado, em crónica no ‘Diário de Notícias’, Ruben de Carvalho utilizou umas teses esdrúxulas para concluir que, nestas eleições, o tempo corre contra a Direita. No mesmo dia, uma sondagem da Católica exibia a firme subida da “direita”, isto é, de Cavaco Silva. Um dia antes, a sondagem da Aximage para o CM mostrara igual tendência. Dois dias depois, o estudo da Marktest também. Se calhar sem querer, Ruben de Carvalho produziu a mais desmesurada manifestação de optimismo desde que, em 9 de Novembro de 1989, Álvaro Cunhal olhou Berlim e disse: “Isto não há-de ser nada.”
O ingrato papel a que se decidiu prestar manda que Mário Soares participe deste optimismo sem causas. Diariamente, Soares jura que há um movimento a crescer em volta da sua candidatura. Só se for daqueles curiosos que se juntam para contemplar desastres. Goste-se ou não, Cavaco paira acima dos 60% e não aparenta sintomas de descida. Pelo contrário.
Razões? Sem arriscar muito, arrisco uma: o desencanto pátrio precisa de quem lhe dê alguma espécie de sentido. E Cavaco, pelo menos à superfície, dá. Cavaco escreveu para si próprio a personagem de um Presidente adequado ao momento: um sujeito rigoroso que, mediante o equilíbrio milagroso de intervencionismo e respeito institucional, “ajude” a “ultrapassar a crise”, a “devolver a confiança”, a abrir uma “janela de oportunidades” (sic). Dadas as circunstâncias e a realidade em geral, trata-se de uma personagem de ficção, com certeza, como aliás Soares tem excessivamente avisado.
Acresce que Soares não permite ou propõe alternativa. À semelhança dos restantes candidatos de esquerda, limita-se a apregoar as eventuais calamidades que advirão da vitória da “direita”, e, num inevitável toque pessoal, a passear “prestígio” cosmopolita. Infelizmente para ele, o prestígio não rende votos. E as calamidades, além de não assustarem as nações pelintras, não combinam com a metódica figura do “professor”. Se o paraíso prometido por Cavaco é um franco exagero, o apocalipse inventado por Soares é um recurso tonto. E desesperado.
Apesar do espalhafato discordante, alimentado, com fundamentos diversos, por todos os candidatos, o futuro do País não se decide a 22 de Janeiro. A 22 de Janeiro decide-se o destino político de dois homens, por acaso os maiores profissionais que temos no ramo. Até lá, um deles necessita apenas de evitar catástrofes particulares e espalhar esse dúbio optimismo colectivo.
Quanto ao outro, a embrulhada em que se meteu obriga-o a insistir no exacto inverso: optimismo para si, caos para os demais. Na verdade, já está tudo decidido.
Soares gosta de dizer, com propriedade, que os portugueses o conhecem. Mas Cavaco conhece os portugueses.
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