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Correio da Manhã

Opinião
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28 de Setembro de 2003 às 00:00
Défice matemático. As listas de acesso ao ensino superior público anunciadas esta semana revelam um dos problemas mais graves que afectam a competitividade da economia portuguesa. Enquanto a regra nos cursos de ciências sociais, direito e letras é haver uma grande concorrência, nos cursos de engenharia e em geral nos que exigem matemática e física como disciplinas nucleares há uma falta de procura por parte dos estudantes e até existe o paradoxo de haver ingressos com nota negativa. E é precisamente de formados nestes cursos que o país precisa, porque da área de letras e afins já há um exército de mais de 30 mil desempregados. Deve haver muitas razões para a fobia dos portugueses face à matemática e às ciências exactas, mas não será por causa de um determinismo genético. Afinal de contas Pedro Nunes, o inventor do nónio, nasceu em Portugal. E uma das razões para o protagonismo luso nos Descobrimentos é a existência no País de capacidades e conhecimentos matemáticos de ‘ponta’ para a época, o que permitiu a realização dessa odisseia. Se a Escola não melhorar o nível de matemática dos alunos portugueses, dificilmente poderemos assistir a significativas melhorias na economia no futuro. Parece uma questão teórica e distante, mas a verdade é que o nosso nível de vida vai depender em grande parte da capacidade de as escolas portuguesas conseguirem formar melhor os nossos estudantes e isso não acontecerá se mantivermos a habitual complacência em relação às negativas em Matemática.
Campeonato. Numa entrevista recente do ministro David Justino ao CM, este responsável lamenta-se de não existir um campeonato da educação, porque ficamos escandalizados por perder 3-0 perante a Espanha em futebol e não nos preocupamos com as derrotas causadas pelo nosso défice educacional. Nesse campeonato, nas áreas cientificas, Portugal arriscava-se a sofrer goleadas de 9-0 perante os estudantes da Polónia, República Checa ou Hungria. E estes são os países que vão entrar na União Europeia e com os quais nós vamos competir. Uma goleada desta dimensão no futebol, só nos afectaria o orgulho, mas em educação estas derrotas significam uma hipoteca perante o futuro.
Exigência. Um esforço na melhoria do ensino da matemática também poderia ajudar a melhorar o nível de exigência dos cidadãos do País. Talvez obrigasse os responsáveis a dar respostas mais precisas e a impedir que a impunidade fosse outra característica nacional. Talvez assim não se aceitasse, impávida e serenamente, que passar sob uma ponte pedonal fosse um risco para qualquer cidadão, nem que os automobilistas tenham de rezar uma avé-maria sempre que passam por uma das 160 pontes em risco. Nem seria admissível que as autoridades não consigam evitar em 20 minutos uma tragédia numa auto-estrada concessionada, por causa de um carro em contramão. Com mais exigência, talvez não se aceitasse tanto esbanjamento do dinheiro dos nossos impostos.
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