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Correio da Manhã

Opinião
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18 de Novembro de 2003 às 00:19
Na hora da partida do contingente da GNR para o Iraque o 1.º ministro "exigiu" a solidariedade para com a missão. Fê-lo, conforme palavras suas, por a decisão de enviar aquele contingente ter sido "tomada pelos orgãos democraticamente competentes", repartindo, assim, à partida, algumas responsabilidades. Todos sabemos quem apoiou ou não apoiou a aventura em que se transformou a invasão do Iraque e porque o fez. Acabou-se.
O novelo de mentiras e mistificações que precederam o ataque ao Iraque tem vindo a ser impiedosamente desmontado pela imprensa mundial a reboque das suas congéneres norte- -americana e inglesa e já não existem segredos nem dúvidas. Mau grado o esbracejar de uns quantos (muito poucos) acéfalos fieis que repetirão até à exaustão e à hora da morte, as "razões" que Bush e Blair e os seus "spin doctors" venderam ao mundo.
Fez-se um ataque a um país com sofisticados meios, claramente desproporcionados e impiedosamente utilizados. Destruíram-se cidades e infra-estruturas que levarão anos a recuperar. Não houve o menor respeito pelas populações que se limitaram a assistir indefesas à grandeza da agressão e seus efeitos e acabaram por ser as maiores vítimas. Tudo isto em nome de quê? Não da defesa de interesses vitais comuns da Europa e EUA. Não do objectivo de matar no ovo novas hipóteses de ataques terroristas (como se vê...).
Não porque o Iraque tivesse sofisticadas e perigosas e ameaçadoras armas, mas pura e simplesmente porque o petróleo estava lá e o interesse pessoal/político do sr. Bush requeria uma acção desta envergadura, ‘hollywoodesca’, para americano ver.
Assim, ao pedir agora solidariedade o 1.º ministro fá--lo em termos equívocos.
Esqueceu-se que a solidariedade se pede antes de tomar uma decisão difícil.
Esqueceu-se que para os portugueses se sentirem solidários com o seu governo têm de sentir que esse mesmo governo é solidário com as suas preocupações e não que governe em função de interesses que nada nos dizem.
Agora, que tudo se torna claro e é irreversível o 1.º ministro antes de tudo o mais deveria esclarecer se foi ele próprio enganado pelos seus aliados Bush e Blair ( muito capazes de o ter feito) ou se tinha perfeito conhecimento de todo o processo urdido pelo sr. Bush com montes de documentos, fotografias, depoimentos e relatórios falsos, preparados exclusivamente para este efeito (o que até é muito duvidoso....), e nessa medida também ele colaborou na teia de mentiras destinadas a justificar a invasão.
Num dos casos teremos de lamentar apenas a sua imprudência, ingenuidade e injustificada impetuosidade, a que não terá sido alheia uma vontade de se mostrar ao lado dos grandes e poderosos, de parecer um dos deles. No outro deve uma justificação muito clara ao País.
Sem um esclarecimento desta questão ficará sempre em dívida para com todos nós. E face à limpidez dos factos dificilmente poderá encarar os portugueses olhos nos olhos. Muito menos se agora alguma coisa correr mal.
Este esclarecimento será de uma relevância extraordinária no modo como nos relacionaremos com Barroso e ele com o País. Como acreditaremos nele ou nas suas verdades e boas intenções.
Independentemente de tudo isto, o contingente partiu e não haverá um único português que não deseje que regressem todos . Inteiros e de boa saúde.
Receoso do que possa acontecer o 1.º ministro intentou, agora, tardiamente, partilhar as suas responsabilidades por tudo quanto de menos bom possa acontecer.
Mas não há arrebatamentos que lhe valham.
Aquilo a que Barroso chama "órgãos democraticamente competentes" não vincula a vontade dos portugueses a não ser quando tomem decisões previamente sufragadas ou apoiadas maioritariamente pela opinião pública.
Barroso terá sempre, por definição e solidariedade funcional de todos os órgãos que domina, mas pouco mais.
Chegou a altura de pedir fervorosamente a todos os santinhos o milagre de o destacamento não ter o mesmo destino das muitas centenas de militares que já por lá ficaram.
Aí, sim, mas só aí, terá a nossa solidariedade.
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