Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
5
17 de Janeiro de 2003 às 01:36
1.No passado fim-de-semana, Portugal deu ao mundo uma suave amostra do que poderá vir a ser o "Euro 2004", esse desígnio nacional por excelência. Entre insultos, petardos e pancada, começou a fazer-se uma ideia do espectáculo que encherá os dez novos estádios, em boa hora mandados edificar.

Face ao radioso futuro, e contrariando a euforia geral, o dr. Arnaut resolveu declarar que o nosso futebol dedica demasiada importância ao acessório. O homem não percebeu nada: no futebol português, o "acessório" é o essencial. Talvez o sr. Ministro não tenha notado, mas há muito que os jogos em si são um vago pretexto para a garbosa exibição de dirigentes, "misteres", claques e árbitros.

Não admira, dado que um desafio dura noventa minutos e, de tão mal praticado por cá, torna-se um aborrecimento em que apenas uns tristes reparam.
Pelo contrário, cada "caso", polémica e troca de enxovalhos dura, contas por baixo, uma semana, além de que absorve a atenção de meio país. Entretido com a última graçola do sr. Pinto da Costa, ou o "offside" mal assinalado ao pequeno Simão, o povo masculino (as mulheres refugiam-se na contemplação do "social") permite-se esquecer as maçadas quotidianas – que, de resto, não têm solução rápida e custam a compreender.
Donde os pedidos de moderação do dr. Arnaut só devem ser tomados como mais uma tentativa deste malvado Governo em combater a alegria das gentes. A somar à crise, ao défice, às portagens e aos salários congelados, um futebol sem folclore seria passo certo para uma monumental depressão colectiva.

Todavia, não há o que temer. Na sua ingenuidade, o dr. Arnaut reclama um alegado "código de conduta", "sentido pelas partes" e não imposto. Não imposto? Ou seja, o dr. Arnaut aguarda que, por súbita iniciativa própria, dirigentes, fanáticos e arruaceiros avulsos cessem a selvajaria actual e desatem a comportar-se como criaturas civilizadas? Tudo bem, mas é mais fácil converter um taliban ao feminismo.

2.O debate sobre o controlo da televisão é tão velho quanto a questão que inevitavelmente sugere: quem controla? Ainda assim, de tempos a tempos, o assunto tende a emergir na chamada opinião pública – a qual, no fundo, se resume normalmente a um punhado de jornalistas empenhados na "causa", dois ou três "notáveis" e, claro está, um partido com vazios programáticos.

Desta vez, o partido foi o CDS, que descobriu horrorizado o incumprimento contumaz da respectiva lei, originando a passagem de "violência" e "pornografia" em horários impróprios para criancinhas. Não espanta, mas sempre diverte ver um partido liberal até à medula em assuntos da economia ferver de paternalismo em matéria de costumes. Ou seja, para os "populares", o mercado cuida de si; as pessoas nem dos filhos cuidam.
Neste desejo de nos pastorear, a matriz dita cristã do CDS não anda longe daquela esquerda puritana, de que o BE constitui o acabado padrão. Se há nuances, são desprezíveis: nas escolas, por exemplo, uns querem que se cante "A Portuguesa", os outros lutam pela normalização da sexualidade. Olha que bom.

No que toca à televisão, e mesmo evitando reconhecê-lo, ambos estão obviamente de acordo na forma. Em declarações ao CM, o dr. Louçã também defendeu a restrição da "violência" e da "pornografia" ao período entre as 22h00 e as 6h00, a menos que, e cito de memória, estejam sujeitas a rígidos critérios jornalísticos (?). O problema, porém, está no fatal ponto de vista. Com "critérios jornalísticos" ou sem eles, quase tudo que é obsceno para o BE será louvável para o CDS – e vice-versa. Como a regra se aplica aos milhões de potenciais programadores televisivos que temos, que gostam de ver o que lhes apetece e, caso entendam, sabem desligar o aparelho, o debate, esperemos, irá pelo caminho do "Não Há Pai". Nem pai nem paciência.
Ver comentários