Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
8
10 de Abril de 2003 às 00:45
Dicionários latinos, citando Virgílio e Columella, definem suber (eris) como sobreiro, a árvore da cortiça, e suberies (ei) como a própria cortiça. De origem mediterrânea, existe na região há milhões de anos. É a única árvore no mundo que produz a cortiça, de origem renovável. O sobreiro é, botanicamente, segundo Lineu, um carvalho (Quercus), ao qual o cientista sueco acrescentou o epíteto latino suberus, para a definir como árvore de casca leve e porosa.
Surgido no ecossistema do Mediterrâneo, desenvolveu-
-se sobretudo na Península Ibérica que tem 56% da produção mundial (Portugal, 33%, e Espanha, 23%); existe também em três países da África Setentrional, Argélia, Marrocos e Tunísia, e ainda em Itália e França, esta última com apenas 1%. No Brasil, segundo a Monumental Enciclopédia, de M. Pio Corrêa, e o incomparável Dicionário das Plantas Úteis do Brasil viceja o sobro, que tem a casca do caule espessa, parecendo cortiça, da qual se tira madeira de lei para construção civil, marcenaria e carpintaria e se Ihe aproveita o carácter ornamental.
Portugal é o maior produtor do sobreiro e da cortiça, de utilização milenar. Seu uso foi explorado na China três mil anos antes de Cristo; na Roma e na Grécia antigas e também no Egipto. Para tapar garrafas e ânforas com vinhos e azeites, parece que tiveram precedência Grécia e Roma (testemunham o achado de Pompeia). Modernamente, a cortiça conquistou novas áreas e até na astronáutica tem sido utilizada: a cortiça subiu ao espaço cósmico como escudo de protecção térmica em foguetões espaciais e no vai-e-vem.
A invenção do uso, em larga escala, da cortiça como rolha de garrafas de bebidas em geral, é atribuída a Dom Perignon, abade beneditino francês (1638-1715) que ficou também na história como inventor do "método champanhês". Concebeu o sistema de arrolhar os vinhos engarrafados da região francesa chamada Champagne, com cortiça proveniente da Espanha, que assim tomou o lugar da tradicional cavilha de madeira.
Em 1870, aos 38 anos de idade, um homem do Norte, António Alves Amorim, nascido em São Tiago da Lourosa, na Feira, associado à família Belchior, fundou uma pequena oficina para fabricar rolhas de cortiça tirada do sobreiro e destinadas a tapar garrafas de Vinho do Porto. Localizada, então, na Rua dos Marinheiros, em Gaia, trabalhavam nela três empregados.
Em 1886, na madureza de seus 54 anos, António Alves Amorim casou com Ana Pinto Alves, e da união nasceram nove filhos, um dos quais, Américo, viria a ser o pai do Américo Amorim de nossos dias, nascido em 1934. Deu continuidade ao ofício da família, que encontrara na indústria corticeira o seu meio de vida e prosperidade.
No começo do século XX, a primitiva fábrica do patriarca Amorim reinstalou-se em Santa Maria de Lamas, na Feira. Se, por um lado, surgiam produtos alternativos à cortiça, por outro lado esta era utilizada também em filtros de cigarro, armações de chapéus coloniais, pisos, revestimento de paredes, objectos de decoração, etc.. A indústria corticeira dependia sobretudo das oscilações do mercado do vinho do Porto e, mais tarde, também dos vinhos de mesa portugueses que, ao longo do século XIX, eram consumidos directamente de pipas. Note-se que, em Eça de Queiroz, que alude em abundância a vinhos, não há referência a vinhos de mesa engarrafados (excepto franceses).
Em 1922, nasce a nova Fábrica Amorim e lrmãos Lda., com os sócios José, António, Américo, Manuel, Henrique, Joaquim, Ana, Rosa e Bernardina, na tradição de firma familiar. No mesmo ano, com 90 de idade, falecia o fundador da indústria que veio a enfrentar dificuldades na crise económica mundial de 1929. A firma, porém, cresceu e firmou contactos comerciais com o Japão, Alemanha, EUA, França, Brasil, Inglaterra, Suécia, etc.. Em 1944, a empresa sofreu um grave incêndio que quase abalou suas estruturas, quando o pequeno Américo, nos dias de hoje o "rei da cortiça", tinha apenas 10 anos. Como a fénix que, depois de arder, renasceu das próprias cinzas, a empresa da família Amorim, já com 350 operários e não apenas três, reergueu-se e voltou forte às lides industriais e comerciais.
Em 2002, Américo Amorim celebrou 50 anos de trabalho, tendo elaborado precioso livro com ilustrações de natureza pessoal, industrial e pública em geral, no qual ditou regras de sucesso e prosperidade.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)