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Francisco Moita Flores

Crianças preconceito

Um polícia grego concluiu que os ciganos não têm filhos louros, logo, a criança foi raptada. Batia certo.

Francisco Moita Flores 27 de Outubro de 2013 às 01:03

A semana foi arrasadora para os preconceitos dominantes nas sociedades europeias.

Abriu com o vergonhoso ato da polícia francesa, decidido pelo presidente socialista Hollande, de intercetar uma criança num autocarro escolar e expulsá-la para o Kosovo, dando uma facada brutal no mito de que a esquerda é a dona da moral, da integração, do respeito pelos direitos de cidadania. A França rebelou-se indignada e as ruas encheram-se de protestos. Ainda este caso não arrefecera, e eis que um polícia grego produz um raciocínio digno de Sherlock Holmes. Encontra uma família cigana com uma criança loura e conclui que os ciganos não têm filhos louros, logo, a criança foi raptada. Batia certo.

A Maddie, a mais conhecida das crianças louras desaparecidas, também fora raptada, e o aviso internacional foi claro: os ciganos raptaram uma criança cuja origem deveria ser o centro ou norte da Europa, porque era loura. Esta nova inditosa criança heroína, fonte de compaixão europeia, estimulou outras polícias, e na Irlanda surge mais um caso.

Outra família cigana com uma criança loura. E toma! A miúda retirada de imediato à família, com muitos protestos à mistura, e toca de fazer testes de ADN para saber de onde esta teria sido raptada.

A Europa voltou-se então para as desculpas e explicações. A esquerda francesa atarantada, sem perceber os seus preconceitos, explicando mal e porcamente os problemas da exclusão e da imigração, as relações com as minorias e as perseguições xenófobas. E para agravar a situação, as crianças louras eram, afinal, histórias mal contadas.

A irlandesa era mesmo filha dos ciganos; a grega não viera do norte rico da Europa, mas fora entregue à nascença por uma família búlgara ainda mais miserável do que os miseráveis ciganos gregos. Falhava assim um bom motivo para escarrar em cima da etnia cigana os grandes males europeus, todos projetados nesta imensa compaixão pelas crianças louras raptadas, roubadas, espoliadas por esses ladrões de culturas sempre em peregrinação.

Destas histórias repugnantes de preconceitos, fica apenas um sabor ácido de desconforto e de confronto com o que de pior existe na natureza humana. Há tanto caminho para andar, Santo Deus!

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