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Correio da Manhã

Opinião
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6 de Março de 2007 às 09:00
Anestesiada durante as maiorias absolutas de Cavaco Silva, a direita portuguesa continua à procura de si própria.
Marcelo Rebelo de Sousa abandonou prematuramente a presidência do PSD, mas parecia capaz de revitalizar o espaço que vai do centro-direita ao centro-esquerda.
Com Durão Barroso, o PSD voltou ao poder mais cedo do que esperava. Mais do que uma conquista, foi a abdicação de Guterres que levou Barroso primeiro a São Bento e depois a Bruxelas.
Sucedeu-lhe o inesperado Governo de Santana Lopes, vítima principal de si próprio; presa fácil também de alguns media que usam dois pesos e duas medidas.
Já o CDS, no tempo de Cavaco Silva, foi abafado pela onda laranja. Com Durão Barroso e Santana Lopes, o CDS recuperou o necessário para se tornar indispensável a uma governação maioritária.
No Governo, Paulo Portas conseguiu influência superior à simples aritmética do seu grupo parlamentar. Saiu em crise, anunciando retirar-se da vida política, entregando-se a outros projectos. Foi sol de pouca dura. Portas nunca se afastou, mas tão-pouco colaborou com a nova direcção do CDS. Ribeiro e Castro adoptou uma linha democrata-cristã e tem-se batido contra toda a sorte de dificuldades, em permanente rota de colisão com um grupo parlamentar que não escolheu. Esteve melhor do que muitos esperariam, mas não fez esquecer Portas. Que também não deixou que o esquecessem.
Em todo o caso, a liderança de Ribeiro e Castro não parece esgotada nem incapaz de assegurar a condução do CDS. Seria razoável, por isso, que eventuais candidatos à sucessão só aparecessem mais tarde. Paulo Portas optou por antecipar calendários, ficando a dúvida sobre se o fez por causa do CDS ou por adivinhar problemas no PSD.
É manifesto que a liderança de Marques Mendes está desgastada. Mais cedo ou mais tarde o problema vai pôr-se. Quem, no CDS, tivesse ambições de derrubar Ribeiro e Castro teria de o fazer rapidamente, procurando condicionar a eventual sucessão de Marques Mendes e tirar partido de futuras tormentas. Um novo líder do PSD pode retirar espaço ao CDS; a candidatura de Paulo Portas pretende o inverso: reduzir a margem de manobra do PSD, rentabilizando a crise anunciada.
À esquerda, este combate é bem-vindo. José Sócrates sabe que a esquerda está ideologicamente mais dividida do que a direita. O que separa PCP e Bloco de esquerda da orientação económica do Governo é muito mais ideológico do que aquilo que possa dividir PSD e CDS. Mesmo dentro do PS, é manifesto que a orientação económico-social do Governo levanta reservas, que tenderão a expressar-se de forma mais clara à medida que diminuir a popularidade do primeiro-ministro.
No momento em que parece terminar o estado de graça do Governo, uma boa guerra à direita vem mesmo a calhar. Os ajustes de contas à direita também permitem deixar na sombra as contradições de uma esquerda, profundamente dividida entre defensores do mercado e os saudosistas de um Estado que tudo pode e manda: até parar as OPA sobre a Portugal Telecom...
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