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Correio da Manhã

Opinião
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20 de Janeiro de 2006 às 00:00
Sou uma espécie exclusiva de Angola e movo--me na zona planáltica de Malange, algures entre os rios Kwanza e Luando. Resido, porém, há muito, no coração e na mente dos angolanos, viajo pelo mundo nos aviões da TAAG, sou símbolo de Angola, dou nome à selecção de Angola – os ‘palancas negras’, esses, agora no Egipto, para disputar a Taça de África das Nações.
Porém, a minha espécie é tímida e vive entre as árvores do parque nacional de Cagandala, a que os portugueses chamaram, primeiro, “santuário da palanca real”, depois “reserva natural do Luando”, “reserva nacional de Cagandala”, finalmente, “parque nacional de Cagandala”.
Vivi escondida até 1909, quando o engenheiro belga, Frank Varian, trabalhador do Caminho de Ferro de Benguela, me descobriu. Por ser uma espécie exclusiva de um país, e pouco numerosa, fiquei sob protecção, mas a guerra quase me liquidou…
Lembro-me, a propósito, de um poema de Arlindo Barbeitos, meu patrício, “na leveza do luar crescente”…
“Antes, pela manhã, pela tarde, a qualquer hora, vinham pássaros e comiam as fritas das árvores que os avós nos deixaram…
Depois, pela manhã, pela tarde, a qualquer hora, vinham estranhos e cortavam as árvores que os avós nos deixaram…
Agora, pela manhã, pela tarde, a qualquer hora, vêm soldados e matam os homens que os avós nos deixaram…”
Sobrevivi, mas julgava-se que não. Não me viam desde 1982, mas, no ano passado, uma equipa do professor Pedro Vaz Pinto, do Centro de Estudos e Investigação da Universidade Católica, conseguiu, finalmente, fotografar-me. A equipa instalou câmaras na floresta, obteve fotografias e recolheu matéria cujo ADN me identificou.
Aos que não me conhecem, digo que a minha espécie é bela, de um negro quase brilhante (as fêmeas são de uma cor castanha escura), com focinho, ventre e flancos brancos. O meu sinal distintivo são os chifres, longos (às vezes com um metro e meio) e curvados, com as pontas quase tocando as costas.
Se estiverem atentos, hão-de reparar que a minha imagem está na cauda dos aviões da TAAG que quase todos os dias sobrevoam Lisboa.
Agora que me identificam, direi que por aqui andarei durante a CAN. Como observador distanciado, contando histórias, escrevendo sobre África, Angola e futebol, torcendo pelos meus patrícios, já amanhã, no jogo com os Camarões.
Nós, angolanos, somos sobreviventes e na paz ganhamos o direito até à felicidade de ganhar no futebol.
Boa sorte ‘palancas negras’!
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