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Correio da Manhã

Opinião
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18 de Maio de 2003 às 00:03
A forma como a TVI tratou o ‘Caso Fernanda Serrano’ é daquelas coisas que, por mais voltas que se dêem, cheira a esturro. Em primeiro lugar é preciso dizer que o vídeo pornográfico (em que a portuguesa era alegadamente confundida com uma tal de Sophie Evans) andava a circular na Internet há, pelo menos, uma semana. Não é crível, portanto, que só ao cabo de tanto tempo a estação de Queluz tenho tido acesso ao filme de 17 segundos que deixou a protagonista de ‘Amanhecer’ à beira de um ataque de nervos. Podemos até pensar, e aceitar, que o ‘Jornal Nacional’ apenas ‘pegou’ na história porque, entretanto, o caso tomou proporções elevadas e era motivo de falatório nas ruas, cafés e locais de trabalho. Tudo certo.
O que faz confusão é a forma célere como tudo se deslindou entre a ida da actriz ao estúdio (dia 15, quinta-feira) e o ‘jornal’ do dia seguinte, quando o mesmo pivô que entrevistara Fernanda Serrano 24 horas antes (Pedro Pinto) surgiu para dizer que, afinal, a senhora do vídeo pornográfico já estava identificada e não era… a estrela das nossas novelas, mas sim uma húngara com experiência na matéria. Ou seja: se a investigação (que, pelos vistos, nem era assim tão complicada…) tivesse sido feita na véspera, a estação podia ter tratado, no mesmo dia, o assunto de forma completa, rigorosa, fazendo aí nascer a ‘notícia’ mas, para que não restassem dúvidas, explicando logo que se tratava de uma sósia. Mas não.
A TVI lançou primeiro as imagens da confusão, promoveu-as até à exaustão e, ao cabo de quase 100 minutos de ‘Jornal Nacional’, lá teve Fernanda em directo a garantir que não tinha nada a ver com aquela história. Tudo sem que, logo aí, se revelasse a identidade da protagonista do filme. Eis senão quando, poucas horas depois, tudo aparece tirado a limpo. Bastou "mergulhar" na Internet para perceber quem era a sósia de Fernanda Serrano. Na sexta-feira, 16, o filme continua. A partir da tarde repetem-se as imagens pornográficas e anunciam-se desenvolvimentos para o ‘Jornal Nacional’. No final da emissão, uma vez mais, é quando a coisa fica explicada, com uma peça onde se diz, de forma resumida, quem é a mulher com quem Serrano estava a ser confundida. De seguida, há outra peça com declarações da própria Serrano, gravadas, supostamente, nessa tarde, o que só prova que a descoberta terá sido muito rápida.
Com tudo isto, a actriz ficou sujeita a uma situação que podia ter sido evitada. Durante um dia, e mesmo depois das suas explicações, ficou exposta à dúvida, às comparações e à possibilidade de cada um pensar o que bem entendesse. E acho, sinceramente, que não havia essa necessidade. Para a TVI, sim, terá valido a pena: o ‘Jornal Nacional’ subiu francamente o seu ‘share’, principalmente com esta ‘notícia’, que foi seguida por 45 por cento dos portugueses logo no primeiro dia. Com a base de dados que terá ficado após a realização do ‘QI – Quem é Mais Inteligente’, alguém na TVI deve ter chegado à conclusão que somos todos parvos...
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