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Correio da Manhã

Opinião
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1 de Dezembro de 2006 às 17:00
Numa semana politicamente morna, graças aos efeitos residuais da entrevista do PR, que anestesiou o País, deixando-o numa espécie de coma político cor de rosa, somos presenteados com o anúncio da investigação em curso no DIAP do Porto por suspeita de eventual gestão danosa na Metro do Porto. Não sabemos se a notícia é verdadeira, se é falsa. Mas pouco importa. Já nos vamos habituando a grandes anúncios e nenhuns resultados. É a cultura da casa lusitana.
Vivemos há muitas décadas num ameno clima de total permissividade, onde a gestão danosa é o pão nosso de cada dia. E onde corrupção (sua parente próxima) sempre foi olhada quase como um componente do sistema, uma fatalidade e uma necessidade para que os problemas se resolvessem. E os que nunca corrompiam ou se deixavam corromper quase começavam a passar por parvos.
Parece que esta nossa democracia não funciona sem corrupção. Não sabe como fazê-lo. Nasceu assim e não há ortopedia política que a endireite. O que tem tornado os corruptos cada vez mais ousados. É uma situação de faz-de-conta. Combatê-la, sem meios nem vontade, é ampará-la e promovê-la. E, para os corruptores, é mais rápido, menos fatigante e até acaba por ser barato. Fazem-se as contas e entra como um custo. Como a mão-de-obra, a energia ou os seguros. E não se fala mais nisso. Ninguém se chateia. E nós somos o bombo da festa. É um mundo de milhões, de muitas cumplicidades e de cautelas recíprocas, em que, afinal, todos protegem todos.
A carência de meios ao dispor da investigação para levar rapidamente os seus objectivos a bom termo tornou os corruptos indiferentes às ameaças das polícias. A violação constante, e impune, do segredo de justiça trabalha a seu favor. Os artifícios que a lei concede aos seus advogados para impedir o desenvolvimento normal dos processos e o tradicional ‘adormecimento’ dos Tribunais garantem-lhes o esquecimento. E convidam-nos a um sono descansado. Por isso, os grandes corruptos neste País têm vida longa e são sobranceiros. Entram na PJ de charuto na boca e saem com um mal disfarçado ar triunfante. E limitam-se a aguardar, calmamente, a ocasião para voltar a atacar. E tem sempre a vantagem de todos os infractores. São imaginativos e correm à frente do legislador e das polícias. A corrupção é uma dama com um vestuário muito vasto. É mestra de disfarces. Quando os seus procedimentos se começam a transformar em moda presenteia-nos com novas artes.
Com a carinhosa complacência do legislador e dos governos. Temos corrupção, como temos por aí muitos gestores ruinosos pagos principescamente. Mas estas situações ainda não são claramente do foro dos tribunais. Mas têm responsáveis. A responsabilidade primária é de quem os escolheu e os pôs no poleiro, para satisfazer clientelas políticas, como quem dá milho aos pardais. E esses, pobres inocentes, fingem, sempre, não fazer parte da história…
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