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Correio da Manhã

Opinião
7 de Maio de 2004 às 00:00
Estranho País. Cruz saiu tão culpado ou inocente como entrou. Nem mais nem menos. Mas já cumpriu uma pesada pena. Se esta não é uma Justiça de raciocínio lento, sofre de grave maleita difícil de diagnosticar. As contas que Cruz terá de prestar à Justiça ou que esta lhe terá de prestar a ele estão por fazer, mas esta contabilidade mostra-se cada vez mais confusa.
O processo é, realmente, exemplar. Não tanto pela superprodução em que todos os agentes nele envolvidos o transformaram, mas pela viragem que representou na censura social em relação ao fenómeno. Porque aos acusados e indiciados há que acrescentar um país quase inteiro, que finge só agora ter tido conhecimento do fenómeno. A maçã está podre, mas o apodrecimento não foi súbito. Durante anos vimos, todos os dias, os miúdos no parque Eduardo VII, nos jardins de Belém, junto ao rio e um pouco por toda a cidade, oferecendo-se a quem os desejava. Mas ninguém queria ver nada. A polícia afastava-se desses locais, prudentemente, para facilitar a safra, ou, provavelmente, evitar encontros comprometedores. E não nos importávamos. Era a insensibilidade de uma hipocrisia que fecha os olhos e quer pensar que não tem nada a ver com o que se passa.
Era, como hoje ainda acontece em relação a muitos males do mundo, o consentimento tácito e o convívio permanente e insensível, com a miséria e o nojo. E, se era assim, porque haviam de autocensurar-se uns tantos mais envergonhados e endinheirados com famílias tradicionais, que, mercê das suas “boas” relações “encomendavam” por telefone e esperavam calmamente em locais recatados para satisfazer os seus doentios apetites? Porque não haveriam eles de esperar uma impunidade igual à que as autoridades concediam aos pedófilos de rua? É este complacente silêncio que nos culpabiliza a todos. Todos. Mesmo os que, hoje, acordaram e movimentam a máquina que busca a reposição de alguma moralidade.
Para entreter “o povo” já aí temos a operação “Apito Dourado” com as subliminares promessas de investigação dos financiamentos partidários, através do circuito fatídico autarquias/obras públicas/futebol/sacos azuis.
Mas todos sabemos que este é terreno minado que atirará pelos ares quem se atrever a pisá-lo.
O mais provável é que nos fiquemos pelas traquinices dos aventureiros mais ousados e mais desprotegidos. Dos que, distraídos, se esqueceram de entregar tudo ao partido.
Apostamos?
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