Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
17 de Dezembro de 2006 às 17:00
Esta semana, a SIC passou uma reportagem que deveria ser comprada pelo Ministério da Educação para constar no programa do Ensino Básico, terciário ou lá o que for, desde que seja para ensinar portugueses. Isto é, ensinar os portugueses sobre os portugueses. Sobre a nossa crença na taluda e no fia-te na Virgem e não corras. Falo da reportagem sobre a vida e obra de D. Branquinha.
Só não sabe quem é D. Branquinha quem não andou, por estes dias, de táxi, metro ou autocarro. É uma velhinha que bateu aos pontos Carolina Salgado em falatório. É normal. Falamos mais das histórias com probabilidades de lá estarmos metidos. As mulheres não acreditam que podem ser Carolina, os homens, que possam cair-lhe nos encantos. Já ter sido herdeiro de D. Branca de Jesus Peste é coisa que, suspeitamos, baixinho, nos podia ter calhado.
Contou, pois, a SIC, em ‘A Herança de D. Branquinha’, a história de uma trafulha que morreu octogenária, em 2004, com muita gente à volta. O médico verificou o óbito, olhou a assistência e proclamou: “Desandem, sou o único herdeiro.” Ao que alguém respondeu: “Não é, não. Tenho aqui o testamento.” E outro: “Eu também.” E outro e outro... Tinha começado a lenda de D. Branquinha, a multiplicadora de herdeiros. Coisa que não fez, claro, gratuitamente. A velhinha passou décadas a fazer crer a incautos que lhes deixava a fortuna se cuidassem dela. Como não há testamentos grátis, por essa miragem desapareceram centenas de milhares de euros e muito carinho prodigalizado por gente que já se via nababo mal a velha batesse a bota.
Ela levava lorpas de táxi pelo Alentejo e abria os braços: “Tudo isto é meu!” Os tansos viam hectares, bois e ovelhas e pensavam, não na frase da velha, mas no futuro dela: “Tudo isto será meu!” A mesma cena fascinada por casas de Estremoz ou vivendas do Restelo. Houve, até, um “palácio de 63 janelas” a fazer de isca. Então, passavam cheques, na esperança da herança prometida. Boa pescadora, D. Branquinha dava mais ou menos linha aos fisgados pela ganância. Um dia, a TV dava a morte de Champalimaud, a velhinha disse a um dos ‘herdeiros’: “Olha, lá se foi um dos meus colegas…”
Palácios, Champalimaud, herdades, não era esticar demais a corda? Pergunta ingénua no mundo do conto-do-vigário. Foi tradição em Lisboa venderem-se aos pategos que desembarcavam em Santa Apolónia um eléctrico ou, até, a estátua de D. José (“e leva o cavalo, grátis!”). Este negócio é como o imobiliário, vendem-se mais depressa as vivendas com piscina do que apartamentos de duas assoalhadas.
Outra característica do negócio: contar com a má consciência do enganado.
Este sabe que não é muito limpa a sorte grande que lhe calhou. Aquele que aceita ficar com um maço de notas que um desconhecido quer partilhar com ele sabe que aquilo não é honesto. E, por o saber, quer negócio feito em segredo e à pressa… o que vai fazer dele mais uma vítima do conto-do-vigário. Com D. Branquinha houve quem não se importasse em chamar-lhe ‘mãe’ ao fim de um mês de a conhecer. E lhe fizesse massagens aos pés. Aquilo que tapa o olhar do Tio Patinhas, um reluzente cifrão, não os deixava ver a verdade evidente. No fim da reportagem, uma vizinha lançou um vingador e justo: “Bem feita!”
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)