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Correio da Manhã

Opinião
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23 de Maio de 2004 às 00:00
“Ai lindinho! Eu tiro uma postinha especial para si!” As mãos fortes de dona Albina acariciam o peixe-espada antes de cortá-lo em pedaços simétricos para o interior de um saco de plástico. O freguês de idade avançada e cabelo ralo estende-lhe a mão com uma nota de cinco euros na ponta dos dedos. “E a senhora, está a ver estes chocos? Uma maravilha.” A sua banca de peixe é a mais concorrida no Mercado do Bolhão. Os carapaus e salmonetes parecem acabados de pescar e são o alvo de cobiça dos clientes que se acotovelam com sofreguidão. Faltavam poucos minutos para a hora de almoço.
Ao lado da balança, onde pesa meia dúzia de sardinhas, está pendurado um ‘poster’ com o plantel do Futebol Clube do Porto, amarelecido pelo tempo. “Somos os maiores. Quando o fê-cê-pê ganha até venho trabalhar de cueca azul”, dispara Albina Ferreira, uma tripeira de 53 anos de ar regateiro e conversa fácil. “Digo o que me vem na alma, carago!”
Ela festeja cada vitória do clube como se fosse a primeira: “O FCP foi roubado durante anos. A minha raiva é tão grande que tenho de deitá-la cá para fora”, desabafa a peixeira que nasceu no Bairro de Santo António e cresceu a apregoar o peixe nas bancas do colorido Mercado do Bolhão. O marido, “um lagarto mansinho”, costuma ser o seu saco de boxe. Foi ele que a aturou depois da derrota contra o Benfica na final da Taça de Portugal. “Esses mouros? Nem cheirá-los. Só ganharam porque o árbitro era marreta!”
Mais perto do rio Douro, no cais da Ribeira, cachecóis e camisolas do Futebol Clube do Porto decoram os estendais e agitam-se com o vento como bandeiras. Apesar dos golos de Fyssas e Simão ainda estarem frescos na memória, os tripeiros preparam já a festa do jogo contra o Mónaco.
“Coitados, os lampiões já deviam ter os cachecóis guardados no armário há oito anos cheios de teias de aranha”, ironiza Carlos Ribeiro, o dono do Buraquinho, bar de culto que serve de ponto de encontro das claques portistas. Os poucos clientes da casa escutam-no religiosamente, com um sorriso nos lábios. As suas tiradas humorísticas combinam bem com um refrescante ‘fino’ tirado à pressão.
O seu amor ao Porto é quase tão grande como a antipatia ao Benfica. “Aqui todos são bem-vindos. Só não entram lampiões.” Mais gargalhadas em redor. Carlos aponta para o tecto onde estão penduradas dezenas de camisolas de clubes como o Barcelona, Celtic, Leeds ou Manchester United. “São ‘recuerdos’ deixados por adeptos estrangeiros que vêm assistir aos jogos na Invicta”, informa. Pormenor: não há vestígios do emblema das águias. “É um ódio saudável. Não queremos que morram, mas que estejam vivos para sofrerem”, parodia este ‘one man show’ de 43 anos.
O cunhado dele, Armando Montola, que encostado ao balcão ouve as tiradas gabarolas, conta que os dois partiram uma cama, depois de comemorarem o golo mágico de Madjer, numa outra final da Taça dos Campeões Europeus, em 1987, contra o Bayern de Munique. “Tinha acabado de comprar a mobília. Mas valeu a pena, carago!” regozija-se. Afinal, camas há muitas e não é todos os dias que se vence uma final. Os dois familiares sonham que os momentos de glória se repitam na próxima quarta-feira, em Gelsenkirchen, na Alemanha. “Vai ser mais um troféu para o Pinto da Costa e o Mourinho!”
OS FILHOS DA NAÇÃO AZUL
Em nenhuma outra cidade do País o futebol é vivido de uma forma tão arrebatadora e sentimental como no Porto. Para os tripeiros, a bola é uma questão de honra e os seus humores variam consoante os resultados do seu FCP. “O clube identifica-se com a cidade”, explica o antropólogo Daniel Seabra. Porquê? “Em primeiro lugar, o nome e o emblema são os mesmos dos da Invicta. Para além disso, os adeptos sentem que o FCP tem sido prejudicado pelo poder centralista da capital.”
Este sentimento de perseguição uniu as pessoas em torno de uma causa comum: o FCP tornou-se em mais do que um mero clube de futebol, hoje é a bandeira de uma região e até de uma nação. “Existe um certo patriotismo urbano. As glórias futebolísticas do clube servem para acentuar a rivalidade com Lisboa.”
O professor nortenho prepara uma tese de mestrado sobre os Super Dragões. “Não há adeptos tão fiéis e militantes como eles. Deslocam-se em qualquer circunstância para os jogos. Não têm medo da confrontação. São verdadeiros ultras”, define Daniel Seabra que os acompanhou de perto durante vários meses.
A ideia é corroborada pelo escritor britânico Nick Hornby, que descreveu o fenómeno no livro ‘Febre no Estádio’. “Para o verdadeiro torcedor, o futebol não é uma diversão, não é apenas um jogo: é quase sempre angústia e sofrimento. O adepto fanático é capaz de perder o casamento de um amigo se a data coincidir com um jogo. Assiste às partidas de pé, gritando e cantando até nas derrotas.”
O CONCEITUADO ANTROPÓLOGO
Desmond Morris, que em 1981 escreveu ‘A Tribo do Futebol’, vai mais longe. “Cada índio destas tribos comporta-se como se as tribos vizinhas fossem inimigos verdadeiros, a abater, a destruir.” Daniel Seabra discorda desta visão belicista, pelo menos aplicada nas claques nortenhas. “Recai um enorme estigma sobre eles. A violência tem sido exacerbada pela comunicação social. Os Super Dragões são meros aprendizes de 'hooligans' ao pé dos arruaceiros ingleses.”
Na sua tese, intitulada ‘Mágico Porto Vence Por Nós’, o antropólogo conclui que nem todos os membros são provenientes dos bairros populares de Francos, Aleixo ou Ribeira. Também há adeptos de estratos sociais mais favorecidos. E não são menos fanáticos pela chama do dragão. “Houve um rapaz que numa deslocação da equipa a Barcelona, fez o colchão sair pela escada de incêndio de um hotel de luxo e preferiu dormir com o resto da claque no autocarro”, recorda o professor da Universidade Fernando Pessoa. É a alma tripeira no seu melhor.
SUOR, BALÕES E CASSETES
Carla Sousa, de 28 anos, é uma mulher num mundo ainda dominado por homens: uma claque de futebol. “Pertenço aos Super Dragões desde 1993. Não perco um jogo”, refere. Oriunda de uma família de benfiquistas, confessa que no início da sua militância clubista ia às escondidas ver os jogos, porque o pai não lhe dava dinheiro para esbanjar no clube azul-e-branco.
“O espírito de união entre tripeiros é único”, defende a rapariga que não sente nenhum tipo de machismo quando viaja em grupo para assistir ao seu 'fê-cê-pê', fora de portas. E mesmo que houvesse algum problema, teria o seu namorado, proeminente membro da claque, para defendê-la de eventuais bocas foleiras. “Há cada vez mais raparigas nos Super Dragões. E elas ainda são mais fanáticas do que eles.” Não há uma partida onde Carla não puxe pelos pulmões para incentivar Deco, Derlei e companhia. E soletra o refrão do seu cântico preferido: “A-la-la. Nós somos a tua voz. Queremos a vitória. Conquistada para nós!”
Israel Sousa, o seu corpulento companheiro de 27 anos, orgulha-se de ter fundado a primeira loja de merchandising da claque tripeira, em 2003. O estabelecimento, situado no bairro de Miragaia, é um templo à fé portista. Cassetes, t-shirts comemorativas, gorros e casacos de tons azuis, vendem-se com preço de amigo para sócios. “Estes cachecóis de nylon foram feitos exclusivamente para a final de Sevilha, do ano passado. A temperatura era tão alta que não podíamos levar os tradicionais de lã”, explica Israel.
Nas montras dos mini-mercados, barbearias e cafés de outros bairros históricos como a Foz Velha ou São Bento, os comerciantes ostentam o mesmo orgulho tripeiro. O senhor José, dono da mercearia Fernandes, tem estendido o seu cachecol da sorte entre garrafas de óleo Fula e latas de atum ‘Bom Petisco’. Era com ele ao pescoço que ia ver jogar ídolos como o Hernâni, Virgílio ou o Américo. “Hoje já não consigo ir ao estádio. Sofro tanto que nem consigo dormir”, explica enquanto mostra o seu cartão de sócio. “Tenho 38 anos de filiação e em casa guardo a minha roseta de prata (galardão dado a associados com 25 anos de clube).”
Um pouco mais acima, nas ruelas empedradas da Sé, percorridas por turistas ingleses de máquina fotográfica em punho, pequenos ‘dealers’ desgrenhados e cães rafeiros, conhecemos um outro sócio do 'fê-cê-pê': o Henrique. Só tem um ano de idade, mas foi-lhe guardado um lugar cativo na bancada infantil. “Ele já é um verdadeiro tripeiro!”, clama a mãe, Maria de Jesus, enquanto segura o bebé ao colo e exibe o seu cartão com o n.º 99840. Henrique não compreende e começa a chorar. “Vá lá, menino. Quarta-feira isso passa!”, brinca a mulher de avental nascida há 35 anos.
Se os reais monegascos sucumbirem à artilharia pesada das tropas das Antas, também Henrique vai comparecer na festa de arromba prometida no Bairro da Sé. Maria de Jesus exulta: “Vai ser lindo de ver! Estas paredes e varandas cobertas de balões, bandeiras e lençóis azuis e brancos.”
RUI REININHO - “O BENFICA FOI UMA MODA DOS ANOS 60”
Pode dizer-se que o FC Porto é uma nação?
É mais do que isso. Ser do 'fê-cê-pê' é uma atitude.
Ser tripeiro é também uma maneira de estar na vida?
Os adeptos de FCP têm uma maneira diferente de gostar de futebol. Mais genuína. Não temos a pretensão de ser o maior clube ou o glorioso. Ser do FCP é uma prática, não uma história do passado. O Benfica apenas foi uma moda dos anos 60, um pouco como o ‘twist’. É um sintoma decadente.
O futebol é a maior bandeira do clube?
Nem por sombras. Basta reparar que esta época o Porto é, ou poderá ser, campeão nacional de andebol, hóquei em patins e basquetebol.
A mística portista está relacionada com os anos em que o Norte era dominado pelo Sul?
Sem dúvida. Sempre sentimos a opressão dos dois grandes clubes do Sul. Lembro-me de ver os jogos do meu clube, nos anos 70 e 80 e sentir que éramos sempre prejudicados por arbitragens duvidosas. E hoje continuamos a ser.
Os adversários dizem o contrário…
Não têm razão. Basta ver que a final da Taça de Portugal continua a ser jogada em casa dos maiores adversários do FCP. E não permite que o povo do Norte adira também a esta festa . O Jamor está ligado ao antigo regime. E infelizmente continua-se a jogar futebol no estádio oficial do Estado Novo.
Quem são as pessoas que representam hoje o sucesso do FCP?
É o povo. Antes éramos apenas vistos como um clube simpático, uma espécie de irredutíveis gauleses. O Porto era uma cidade desmoralizada. Hoje, até o Emir Kusturica, prestigiado realizador de cinema de origem croata, diz ser adepto do FCP.
As vitórias do clube da Invicta estão a atrair cada vez mais adeptos?
Não é isso que nos interessa. O FCP é apenas dos que gostam do clube. Além disso, não cabem mais de 50 mil no estádio. Não precisamos de ter 6 milhões de adeptos, como apregoam os outros.
Quais são as previsões para a final de quarta-feira entre o FCP e o Mónaco?
Vai ser muito difícil mas vamos ganhar. O FCP de Vítor Baía tem mais hipóteses de ser campeão europeu do que a selecção nacional de Ricardo. Até porque o FCP tem apenas noventa minutos pela frente. E a selecção tem seis jogos para poder ganhar o Euro’2004.
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