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Correio da Manhã

Opinião
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10 de Março de 2006 às 17:00
Cavaco tomou posse pondo termo a um período em que Sampaio fez penosamente o seu luto e o de toda a Esquerda.
Apresentou-se de corpo inteiro. Disse ao que vem. Enunciou a sua leitura dos poderes presidenciais. Que finalmente deixou clara. Sem gaguejar. E deixou inquietos o Governo, que disfarçou mal, e a Esquerda, que nem se deu ao trabalho de disfarçar.
Usou fórmulas vagas e gerais, com as quais, afinal, quase todos estamos de acordo. Foi lamentavelmente vago e quase vazio em relação a todos os grandes problemas nacionais. Todos enunciou mas não passou de fórmulas grandiloquentes e muito gastas. No fundo, a única coisa que parece tê-lo motivado foram as declarações de que, de futuro, Sócrates terá de contar com o seu acompanhamento “com exigência” da acção governativa. E que, para ele, a estabilidade política é uma condição e não um objectivo. O que subentende que a inexistência ou sacrifício dessa estabilidade o não manietarão. Dois sérios avisos que Sócrates fingiu não compreender.
Cavaco deu, assim, uma nova esperança à oposição de direita, que volta a admitir, agora, que ele possa fazer aquilo que ela nunca se imaginou capaz de fazer.
Cavaco está mais à vontade. Como Sócrates estava, até ontem, confiante na sua maioria.
Julga que é, agora, finalmente, intocável. Durante cinco anos, não terá de lutar por lugares, nem de recear competidores, nem de prestar contas. Pode dispensar os silêncios comprometedores, as ambiguidades (embora ontem o não tenha conseguido fazer) e os tabus. Dizer sem rodeios o que pensa e o que quer. Mostrar-se tal como é.
A Esquerda não mereceu outro Presidente e a Direita nem este merecia. Sobrou para nós.
Cavaco em Belém, se não vier a contradizer-se grosseiramente, é merecido castigo para todos eles. Agora é esperar para ver.
Cavaco não é um santo. Mas também não precisamos de santos em Belém. Nem a nossa vida política é atreita a produzir santos.
Precisamos do tal asseio ético absoluto – que dele se anuncia –, de muito senso comum, de uma forte muralha ao aparelhismo, à corrupção e ao compadrio. E já teremos muito mais do que alguma vez tivemos. Se a isto Cavaco conseguisse acrescentar uma séria preocupação com a Segurança Social, compatibilizando-a com a sua inflexível formação económica (para muitos o seu melhor trunfo, mas para outros o seu pior defeito), já teria valido a pena a sua eleição.
Não há, em parte nenhuma, presidentes nem governos ideais. Também ainda não chegou a moda de contratar craques no estrangeiro para dirigirem os nossos destinos políticos. Jogamos com a prata da casa. É o que temos, e não vale a pena lamentarmo-nos.
Cavaco é um personagem à volta do qual nos últimos dez anos os seus muitos órfãos políticos se esforçaram por construir um imaginário próprio, que acabou por o conduzir a Belém. Será a partir de hoje que iremos aprender a conhecê-lo verdadeiramente.
Se Sócrates e Cavaco são, ou não, irmãos gémeos no pensamento e na acção política, ou se, dada a teimosia de ambos, se irão um dia (e apesar disso) inevitavelmente confrontar num combate de vida ou de morte, só o saberemos quando for exibido o último episódio desta telenovela. Porque, com tais personagens, o elemento trágico estará sempre presente. Aceitam-se apostas.
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