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Correio da Manhã

Opinião
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7 de Julho de 2012 às 01:00

Paralelamente, desenvolveu-se a prática de activistas das jotas partidárias dos anos noventa correrem para as universidades, já no século XXI, para adquirirem uma licenciatura que lhes franqueie um rito de passagem para a senioridade.

Se essa corrida ao Ensino Superior se deve à necessidade sentida de aprender mais alguma coisa de útil, a motivação é nobre, merece aplauso e pode melhorar a qualidade dos conhecimentos da geração que se apossou dos assuntos correntes do poder. Mas se for só para os governantes e os deputados serem tratados por doutores e engenheiros a motivação é ridícula e até desprezível.

Nos países de real tradição democrática não se trata os políticos pelo título académico, mesmo que venham das ‘Grandes Écoles'. Mas também ninguém trata o PR por você, como o genial Ronaldo tratou Cavaco Silva em Belém...

O ‘Professor Doutor' Lindley Cintra, e aqui o título faz sentido, num livro sobre Formas de Tratamento, explicava a variedade das fórmulas sociais destas por um gosto especial pela própria hierarquização, e pela dificuldade em aceitar uma nivelação maior na sociedade portuguesa dos anos sessenta...

A questão remonta mais longe. Mesmo depois da instauração do regime liberal novecentista em Portugal a maior parte dos chefes de governo aceitou títulos nobiliárquicos como os de duque ou marquês que os distinguiam dos viscondes e barões. Só a partir do Engenheiro Fontes Pereira de Melo os líderes dos partidos preferiram ostentar os títulos das suas profissões, nomeadamente os provindos da magistratura. Foi a época dos ‘Conselheiros', que também o eram do Estado, com que se fez a dobragem do século XIX para o XX. Depois, sobretudo com a ditadura, chegaram em massa os doutores e depois os engenheiros para as obras públicas. No regime actual, Lisboa vingou-se com os Professores Doutores, distribuídos a capricho pelos jornalistas.

A nova geração que nos governa deveria dar o exemplo e abandonar essas possidoneiras que ajudam, ainda hoje, a manter um país com as maiores desigualdades de tratamento e rendimento do mundo democrático.

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