Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
24 de Agosto de 2004 às 01:02
Não adianta. Nem o mais empenhado militante socialista consegue acompanhar os desdobramentos dos candidatos em sedes distritais ou jantaradas. E sobretudo é-lhe impossível ler, sublinhar e analisar os 452 artigos e entrevistas semanais dos candidatos, dos apoiantes dos candidatos ou dos amigos de longa data dos candidatos.
Mas vamos supor, por absurdo, a existência do militante ideal, provido de uma omnipresença ideal, que lhe permite ouvir Sócrates em Évora, Coimbra e Lisboa; Soares no Porto, Setúbal e Castelo Branco; Alegre no Altis. Além disso, o militante ideal também possui uma perfeita paciência, pelo que lê toda a imprensa alusiva ao assunto e, em Setembro, tenciona gravar o debate na SIC e revê-lo 19 vezes. O que é que o militante ideal poderá concluir?
Desde logo, verifica com agrado que, ao contrário do que alguns levianos afirmam, na campanha socialista há discussão, e intensa. Depois, constata com pesar que a discussão tem um sentido assaz literal.
À superfície, é sabido, existe o enquadramento de circunstância, em que basicamente Sócrates faz de socialista “moderno” e Alegre de socialista “tradicional” (Soares, que diz coisas iguaizinhas a Alegre mas com palavras idênticas, não conta). Um, sem desprezar a tradição do partido, quer padrões de vida “europeus”, particularmente “nórdicos”; o outro, sem ignorar as virtudes do progresso, privilegia os “valores” da esquerda. Um finge abominar a retórica; o outro finge que a retórica é substância. Um declara-se feroz e quer Estado assistencial; o outro deseja Estado social e é reconhecido caçador. Óptimo.
Fora as minúcias, o PS hoje é uma delícia: insultos, acusações de fraude, calúnias e, essencialmente, o sincero rastro de ódio que a sombra de Mário Soares legou. Ódio, pois: lembram-se dele, aí por 1987 ou 1991? Os seis anos de “guterrismo” e de poder sossegaram-no. Dois anos de Ferro e desorientação retiraram-lhe oportunidade. Mas ódio é a palavra, e é disso que o PS trata. Um ódio de tal forma público que, agora, apenas a previsível desvergonha impedirá que a vitória de uma das facções não empurre milhares de socialistas para o PSD, a extrema-esquerda ou a prostração.
Felizmente, ainda falta um mês para o congresso. Assim que haja consenso em volta deles, esperemos que os valores intrínsecos do PS resistam a esta dura prova. Por mim, com a ressalva de não ser socialista, inclino-me ante a lucidez de Alegre: quando ele garante que o futuro do PS é o “contra-poder”, tudo indica que está coberto de razão. Pelo menos por uns anos.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)