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Correio da Manhã

Opinião
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27 de Julho de 2005 às 17:00
Honestidade’ e ‘competência’ são duas palavras-chave que animam cartazes de candidatos autárquicos em vários pontos do País.
A honestidade e a competência são atributos indispensáveis no desempenho de todas as funções (públicas ou privadas) mas também deviam constituir pressuposto indiscutível em quem se candidata a lugares públicos. A necessidade de sublinhar o carácter honesto e competente dos candidatos autárquicos deriva da manifesta falta de confiança dos eleitores em muitos dos seus eleitos. O mais difícil é convencer o eleitorado de que os candidatos que querem o nosso voto são sérios e capazes. Logo, o acento tónico é colocado na honorabilidade pessoal.
O debate público desvia-se dos projectos e assenta nas pessoas. Os projectos e as ideias são relegados para segundo plano, cedendo tempo de antena a um debate político fulanizado, em que as preferências pessoais assumem posição vital: vota-se em certa pessoa, desvalorizando a forma como ela tenciona governar uma autarquia.
O envolvimento de autarcas em tribunal contribuiu para que as virtudes pessoais se transformem em cavalo de batalha eleitoral: quem é que gosta de se ver contaminado ou associado a casos ainda mal esclarecidos? Ora, ninguém se candidata para ensinar os outros a serem honestos e competentes. Se os temas pessoais se tornaram no centro da questão é porque diminuiu a olhos vistos a confiança e a credibilidade de muitos protagonistas políticos.
Por outro lado, a mistura abusiva entre a vida pessoal e a vida pública mostra como certos candidatos perderam a noção do respeito que devem a si próprios, bem como aos seus eleitores.
Mas a credibilidade não se recupera com a proclamação da virtude em causa própria.
A confiança readquire-se com uma prática de intervenção que rejeite o populismo e as propostas fáceis e se baseie em projectos necessários e sustentáveis ao desenvolvimento do País ou de uma determinada comunidade. O elemento pessoal, sendo indispensável, não pode monopolizar todo o debate político.
E o mesmo sucede com as eleições presidenciais, apesar da relevância que neste caso têm os elementos pessoais. As eleições presidenciais não são um torneio de personalidades. Não bastam os nomes e o respectivo passado. Importa perceber como cada candidato pode ajudar Portugal, durante os próximos cinco anos, a recuperar de uma crise que está longe de ser apenas económica, num contexto internacional que é tudo menos pacífico.
Os nomes mais falados são Cavaco Silva, Mário Soares e Manuel Alegre: para além da história e do desempenho pessoal de cada um no passado, de que forma se posicionam perante o que se está passar no mundo? Como vêem a posição portuguesa no quadro do combate ao terrorismo internacional e às suas causas? Qual a posição a adoptar no relacionamento com os nossos tradicionais aliados, entre os quais os Estados Unidos? Como olham o fenómeno da imigração? Como avaliam a situação social e económica portuguesa? E como valorizam as medidas já adoptadas pelo Governo: concordam ou divergem com as terapias propostas?
Não se discutem os méritos de cada um dos candidatos. Cada qual à sua medida já mostrou qualidades e defeitos. Mas o Presidente da República não é, no sistema constitucional português, um mero ‘corta-fitas’. Através da sua prática, o Presidente condiciona a política interna e contribui para a política externa. Por isso, também nas eleições presidenciais, devemos ir mais longe no que pedimos e exigimos a quem deseje obter o nosso voto.
Digam-nos, primeiro, o que pretendem fazer com o mandato presidencial e não nos peçam cheques em branco, baseados no nome e nas virtudes (e já agora, nos defeitos) que nos fomos habituando a reconhecer em cada um dos três (pré) candidatos às eleições presidenciais.
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